Monday, April 17, 2017

MAKTUB
(Luz... Porto)



Estava 
Escrito 
na minha pele,
Inscrito 
no teu karma,
Tatuado
no meu ventre,
Marcado a ferro 
na tua alma,
Selado 
em nossos destinos,
Esse amor de outras eras
A fusão de nossas vidas.
Veio
A Sorte? a Fortuna? a Moira?
A tempestade do deserto...
Os fios se perderam
Os laços arrebentaram.
Soçobramos.
Eu, num hemisfério.
Tu, em outro.
Bússola quebrada.
Mistério...

Thursday, March 02, 2017


O CÉU QUE NOS PROTEGE

(Luz... Porto)




Quando eu era criança, uns sete anos, talvez, minha irmã me levou para assistir Pinocchio. Elas me levavam ao cinema com frequência. Chorei horrores. Sempre choro. Até hoje.
Por alguma razão, permanecemos no cinema e assistimos de novo. Fiquei encantadíssima com a Fada Azul e com a música WHEN YOU WISH UPON A STAR. Até hoje choro com ela.
Do alto da minha infância, eu chorava, em parte, por ver no boneco de madeira a semelhança com a criação do Homem. O amor do Criador pela Criatura. Gepetto, de gorro e camisolão, faz o pedido à estrela. Um pedido impossível. Como um boneco de madeira pode se tornar um menino de carne e osso?
As fadas existem para isso, suponho. Essa, ao contrário de outras, não faz exatamente uma mágica. Submete o boneco a provas. Difíceis. Há de se provar o caráter, a têmpera, para se conseguir a vida. E não a eterna... 
Chorei porque o boneco era um boneco menino, dado a travessuras, sugestionável. Pensei em Adão e Eva. Por que proibi-los de comer o fruto de apenas UMA árvore? Pareceu -me cruel. Certamente o foi. Por conta de UMA falta, perdemos o Paraíso. Por conta da credulidade, Pinóquio quase não consegue o seu desejo. Pausa. Seu desejo. Do Criador ou da Criatura? Para ser salvo, o boneco de madeira oferece sua "vida" para salvar o Gepetto. Então a bela Fada Azul, a que ostenta uma estrela na testa, volta e há o final feliz.
De todas as fadas dos desenhos, a Fada Azul é minha favorita. Ela é mais democrática. "When you wish upon a star makes no difference who you are..." Não faz diferença quem você seja. Ela vai lhe conceder seu desejo, de acordo com o seu merecimento.
Conversando com uma amiga querida, disse-lhe que gostaria de ser visitada pela Fada Azul. Que precisava dessa visita. Muito gentilmente, ela, que me chama de fada, disse que eu sou a própria Fada Azul. Quem dera... Mas fiquei feliz e honrada com a comparação. Como boa junguiana que sou, o Face me devolve essa foto, postada há muitos anos. Ela tem um valor especial para mim. Minha médica, que além da medicina, entende muito de artes variadas, foi pintar o banheiro do consultório, após o conserto de um vazamento do andar de cima. O teto ficou meio manchado, era difícil tirar as manchas, então ela fez o que era sábio: transformou o teto em um céu. Tento, há anos, encontrar alguém que saiba reproduzir, esse céu com anjos, nuvens e borboletas, no meu quarto.
Parece uma besteira, mas adoraria ver, desfocado pela miopia, esse céu onde coexistem anjos, borboletas, pássaros e... gansos! Vejo gansos!. A esse céu eu acrescentaria outras imagens, as que eu bem entendesse. Um cometa, com certeza. Muitos gostam de espelho no teto. Eu não. Gosto é de céu. Dormiria e meu espírito, chamado pelas angelicais criaturas alçaria voo rumo às alturas, até que um dia alcançasse o infinito.
Como não posso te dar o seu pedido, só rezar e torcer por ele, envio meu texto e meu céu. Veja o privilégio: não gosto de dividir esse céu de que me apropriei apenas na fotografia. Vamos voar por sobre as nuvens até a tempestade passar? Você, que entende de asas, me ensina?

Wednesday, March 01, 2017

O VOO DOS GANSOS
(Luz... Porto) 
Para mamãe



Carminho contemplava o mar que banhava sua cidade. Naquele trecho, havia seixos, conchas. A areia não era lisa. Ela sonhava em cruzá-lo a nado e em pegar um navio que a levasse para além das montanhas.
Ela não sabia muita geografia ainda, mas o pai a presenteara com um livro lindo de contos de fada nórdicos. Ela se imaginava nos fiordes, nas florestas geladas, cercada por fadas, dríades, elfos e gnomos.
Queria ser duas coisas na vida: médica como o pai, e violinista profissional. Atrair pessoas para si, como o fizera o Flautista de Hamelin. Adoraria que as árvores balançassem e que o vento soprasse conforme as notas fossem sendo suavemente retiradas das cordas com o arco.
Médica, a mãe não a deixaria ser. "Não é coisa de moça de família. Quem vai querer casar com uma médica?" Violinista era outra coisa. A mãe apreciava muito a boa música e lhe contratava professoras que a ensinassem, pensando, futuramente, em uma Escola de Música na Capital.
Dona de uma imaginação fértil, ou dotada de habilidades mediúnicas, coisa que a mãe, católica tradicional até a medula, jamais aceitaria, a menina via e sentia coisas estranhas. Por vezes se isolava na natureza para ouvir a música das estrelas, fosse isso o que fosse, ou para entrar em contato com seus "amigos imaginários."
Em uma tarde de outono, sentou-se à beira d'água e ousou arriscar uns passos dentro da água. Deu pulinhos de alegria. Estava fria, como gostava, e uma corrente elétrica acordou-lhe os sentidos. Viu a água parar suas obdulações por um momento para refletir uma cena em um suposto futuro. Viu uma velhinha em uma cama branca, diferente de tudo o que poderia imaginar. Saíam tubos de seu corpo. A senhora estava muito cansada e queria partir. Três mulheres a cercavam. A mais nova entregava-lhe escondida uma pena de ganso e dizia "Para você fazer seu primeiro voo. Como nos contos de fada. Vá. Não tenha medo". E a pena era colocada sob o travesseiro. Atrás da cama, em outro plano, via a mãe, o pai, a irmã, um homem que a olhava com amor e anjos que a aguardavam. Ouviu-se um apito longo e agudo e a paciente voou.
Carminho, um tanto perplexa, saiu correndo da água. Levaria uma bronca da mãe que, em casa, cuidava da irmã. As tias que a acompanhavam eram mais lenientes e permitiam que a pequena fizesse suas travessuras.
A menina foi crescendo, mas aquele cantinho era seu. Era nele que chorava suas mágoas, que contava seus segredos. Tornou-se mulher. Violinista também. Carreira? Foi deixada de lado. A mãe tivera uma caçula com sequelas do parto. Um pouquinho de falta de oxigenação na hora do parto selou-lhe o destino. Para sempre dependente. O dinheiro que os pais economizaram foi pelo ralo. Buscaram tratamentos. Havia poucos.
Começaram a trabalhar cedo, Carminho e sua irmã, Olga. Carminho conheceu um rapaz bem mais velho, vindo de outra cidade. Não era rico, mas trabalhador e honesto. Tinha muito carinho pela família da namorada. Casaram-se. Ela parou de dar aulas e concertos. Tornou-se uma dona de casa sem muito talento e uma mãe dedicada às filhas.
Os anos se passaram, a Vida foi deixando suas marcas, trazendo-lhe netos, quatro. Mudou-se para outra cidade onde pode finalmente nadar em paz. Uns morreram. Muitos. Outros ficaram. Ela cuidava da irmã caçula, Águeda. As filhas se casaram ou foram morar sozinhas. Guardou o livro de Contos de Fada Nórdicos a sete chaves. Só o mostrou à Clara, sua caçula, curiosa como o quê.
Sem que se desse conta, estava em uma cama de hospital, sofrendo. Estava entubada, cansada. O coração velho parara, mas fora "ressuscitada". As filhas e netos a visitavam. Falavam, faziam perguntas que ela não tinha como responder. Rezavam, cantavam. Ela só queria ir embora, descansar. Deus não tinha piedade? Sentiu que a caçula colocava algo sob o travesseiro. Uma pena? Uma pluma? Ouviu as palavras "voar", "para sempre". Era um dos contos! Não tinha como virar a cabeça. Percebeu que os pais, o marido, Olga e outros a aguardavam. Conseguiu mexer o braço. Algo se desconectou.As máquinas apitaram. Voou puxada pelos três gansos mágicos rumo à eternidade.

*Imagem de Marilia Fayh

Tuesday, November 22, 2016


As Cinco Pontas de Uma Estrela
(Luz... Porto)


Quando me casei, ganhei um relógio de corda, como o que meus pais tinham. Curiosamente, estampava o meu nome gravado: Norma. Claro que era o nome do fabricante, mas achei a coincidência feliz. Meu marido dava corda, acertava os ponteiros e os pesos que o mantinham em funcionamento. Era parte importante da sala.
Tive minhas filhas e só a caçula a implicar com ele. Eu tomava como ofensa pessoal. Ela pedia ao pai que o parasse para que ela pudesse dormir. Sono atormentado ela tinha. As circunstâncias a fizeram dormir na sala por uns dois ou três anos, no sofá-cama. O relógio só era acionado depois que ela acordava. 
Faço aniversário em 16 de julho. Em um desses anos perdidos nas areias do tempo, a caçula precisou operar as amídalas. Cirurgia marcada para 17 de julho. Na véspera,  estávamos um tanto nervosos. Medo de que ela tivesse mais uma das infecções recorrentes que, só depois, entenderíamos como alergia. Havia uma certa tensão que se dissipou por volta das nove ou dez da noite quando o relógio caiu da parede para susto nosso e alívio da pequena. Meu marido guardou as peças para um futuro conserto que nunca chegou. A caixa de madeira fora roída por cupins.
Pensando nisso agora, quando os cupins do tempo já comeram muito de minha energia e quando olho a clepsidra e constato a velocidade com que os grãos de areia correm para a metade inferior, talvez gostasse de fazer como ela e pedir ao pai (ou ao Pai) que ele interrompesse Chronos para que eu pudesse dormir em paz.  Que exploda a ampulheta, enchendo o CTI de areia monazítica.
Que minha vida, bem ou mal vivida, escorra pelos degraus e, varrida pelo vento de uma tempestade primitiva,  dê no mar, onde, citando de cabeça uma canção muito ouvida pelas minhas duas caçulas, eu possa virar peixe, virar concha, virar seixo, em noite de lua cheia. 
Estou presa, vivi presa por muito tempo. Já tinha desistido de morrer quando tudo isso ocorreu. Não suporto mais estar aqui, ferida, furada, mexida, revirada, costurada. As pessoas me olham, querendo alguma coisa, alguma reação. Eu não reajo. Querem que eu interaja! Nem eu sei bem onde está minha cabeça! Vagueio por névoas que me levam à infância,  à doença da minha irmã, a meu batismo na praia, que minha filha do meio nunca entendeu. Não leu Uma Aprendizagem Ou O Livro Dos Prazeres. Também não li. Mas tinha o hábito de ler coisas das minhas filhas e li um texto que a caçula escreveu para a faculdade. Visito meus temores. Alguns se dissiparam, outros tomaram proporções gigantescas. Alguma coisa estalou em minha cabeça - e não foi o estalo do Padre António Vieira - e não sei se estou lúcida ou demente. 
Uma estrela de cinco pontas me prende. Não é uma estrela que brilha. Em cada ponta, uma filha. Na última, minha irmã caçula e afilhada. Julgo-me culpada. Sempre me senti assim. Nesse momento, as falhas pesam como bolas de chumbo. Nada do que eu fiz de bom  ou deixei de fazer de mau aparece para minha redenção.
Sou o Cristo Crucificado pelos pecados alheios e pelos próprios que tomo sobre minhas costas tortas. "O médico falou que nunca viu coluna tão ruim quanto a de mamãe", repete-me a primogênita. Não quero ser Cristo, desisti de ser freira, não sou santa como vocês gostariam. Sou uma velha teimosa cujos cabelos não embranqueceram e que adoraria virar pôr-do-sol, dar sua última energia para vocês enfrentarem a noite que se aproxima até que, na eterna mutação, eu venha a trazer novamente os raios dourados, renovados, do amanhecer.
Das pontas da estrela, uma, em sua total inocência e falta de proteção,  aguarda-me em casa para dormir a meu lado. Outra acredita que eu volte para a casa.  Precisa acreditar. Chova ou faça sol, está a meu lado. Interpreta qualquer reação muscular como resposta. Reza e sofre, mas é proibida  de chorar. Brinca de jogo do contente. Não consegue rezar ou pedir a mim para que eu me vá, como fez com o pai. A orfandade total pesa... A terceira quer que tudo seja feito segundo a minha religião e se opõe a tudo que não seja convencional. Disse para o pai, uma vez, que ele já devia ter morrido por estar velho. Velho? Estou seis anos e pouco mais velha do que ele estava quando partiu. Acho que ela não suportava o sofrimento dele. Acabou sofrendo muito e endureceu mais do que precisava. Não pode me ver e se ressente por isso. A quarta... A quarta quer que eu me vá para não sofrer. Trôpega, torta e com dor, não deixa de me visitar. Canta o que eu gosto e o que nem sei se gosto. Tem medo de olhar para mim e não me ver mais no meu corpo maltratado. Tem culpa por não ser otimista. No íntimo se pergunta se eu não vou começar a fazer milagres... As chagas... A última... A última sente saudades e, chorona, não chora a meu lado. Tenta me embalar com seus sonhos e contos. Precisa desesperadamente ser embalada.  Crê que nossos espíritos se encontram à noite e chora a mãe que nunca teve. Morre de medo de eu estar sofrendo. Também sente culpa. Herdou o pior de mim. Visita-me pouco. Imaginativa e hiper sensível, via o pai naquele corpo inerte cujas reações nós não percebíamos.  Verá minha alma ou a mim se eu voltar, do jeito que eu voltar...
E esse relógio... Que horas são? Pra quê saber? Virão me dar banho? Ainda estou viva ou tudo não passou de um sonho? Quero falar... As palavras não saem. Batem na minha cabeça e ecoam por dentro. Me leva logo, meu Deus! Já disse que não aguento mais... Que eu ouça logo a ampulheta se espatifar e voe para onde não haja tanto sofrimento. Fracassei... Perdão...

Wednesday, November 09, 2016


As Valquírias 
(Luz... Porto)


Essa noite fui acordada por um Anjo que me chamava: "Depressa! Tua mãe está indo". Ainda mergulhada num estado entre a vigília e o sono, levantei-me e perguntei:  "Indo para onde?" "Eu te levo ".
Os problemas aqui da Terra, deixei-os e percorri dimensões. Encontrei-a cavalgando em solo nórdico. Era uma jovem, loura, cabelos longos ao vento, presos por dois pentes, atrás de cada orelha. Parecia, assim, ter asas.
-Mãe?
-Ah. Você está aí? Venha.
-Não sei cavalgar. Não me consta que você saiba.
Ela riu. Com um ar sapeca, deu de ombros.
-Estou livre.
-Livre? Você... Você se foi?
-Não. Mas descobri que posso ser livre. Você não fica falando do cordão de prata? Então... Saio do meu corpo e vou aonde quero. Pega logo um cavalo e  vem.
Quando dei por mim, já estava com roupa adequada e cavalgava ao lado dela. Cavalgava nada. Galopávamos. Saltávamos obstáculos. Estava frio, é claro, mas não sentíamos. Paramos à beira de um fiorde. Contemplamos, do alto, o mar gelado batendo contra as pedras.
-O livro que vovô te deu?
-Sim. Você não queria saber o que é um fjord?
-Você me explicou, mãe.
-Vê a força da natureza? A força da água? Ela que esculpiu essa paisagem. Não subestime os signos de água. Nem um canceriano... Sempre soube que não era um signo que te agradasse. Aprende a respeitar o zodíaco inteiro! Vocês leoninos...
-Nunca me passou pela cabeça que você se interessasse por astrologia...
-De onde estou, nesse 'in-between', pairando sobre os dois mundos, tenho tempo. Até demais... Recordo-me de coisas às quais não prestei atenção. Meu espírito está quase livre. Posso ousar o que nunca ousei. Fazer o que nunca fiz. Nada me garante que do lado de lá será o descanso eterno. Talvez haja trabalho...
-Creio que sim, mãe. Deve haver. Aproveita esse limiar e sonha. Descansa.
-Você bem sabe que não quero descansar. Desisti da morte há uns dois anos.
Montamos novamente e rumamos a uma floresta. Adentramos. Parecia um dos contos de fada nórdicos que eu li. Prendemos os cavalos a uma árvore, perto de um rio. Sentamo-nos e comemos um farnel que ela trouxera. Faisão, nozes e outras iguarias. O Anjo ou Arcanjo que me trouxera observava de longe. Ela fez um sinal e A Cavalgada das Valquírias se fez ouvir.
-Prefiro as transcrições para piano. Não me lembro de quais você tocava. 
-Uma de suas favoritas. A Morte de Isolda. Há tantos anos perdi minha vista e deixei de tocar com partitura...
-É uma vergonha, mãe. Não sei o nome das peças que você tocava. Volta e meia deparo-me com uma no YouTube. Internet...
-Você cedeu. Acabou gostando de música clássica além da Popular. A que você chama de MPB.
-Difícil não gostar do que é belo.
-Sempre quis que você estudasse desenho. Talvez pintura. Você desenhava tão bem... Não tínhamos dinheiro. As aulas de inglês já eram um luxo.  Por mim, você também estudaria francês.
-Francês eu queria. Teria preferido música a desenho, eu acho. Coral, suponho. Mas tocar piano é o máximo. Se bem que tocar cravo é divino. E violino?
-Não achava que você tivesse a disciplina para  o piano. Muito menos para o balé. 
-Balé não. Piano talvez. É tão bonito.
-Mas foi uma luta quando você tinha dez anos. Eu querendo voltar a tocar e você presa à televisão... Já sei. Era o raio do Agente 86.
-Pena que sua coluna chiou...
-Pena, pena, pena... Sou uma coleção do que não fui. Não fui médica. Não fui pianista famosa. Não  publiquei UM livro. Não fui boa mãe. Até como compositora falhei. Onde estão minhas fitas com o registro de minhas músicas? Em um plástico qualquer. Arrebentadas. Mofadas.
-Ai, mãe. Você foi a mãe que pode ser. No meu caso, talvez a que eu precisasse ter...
-Você fala assim porque estou indo. Aliás, como você chora!
-Sempre fui chorona. Você sabe.
-Sei. Mas não precisa herdar de mim o que tenho de pior. Vai cuidar da sua vida.
-Vou tentar...
-Tentar não! Vai cuidar. Já. Ou você acha que chegar aos 91 é fácil? Que é pra qualquer um?
-Sei que não é. Na verdade, não esperava que você fosse durar tanto...
-Vai agourar a mãe!
Rimos. Distraímo-nos com animais que passavam.  Queria pegar um esquilo no colo, acariciar uma corça.
-Não são seus gatos!
-E você não gostaria de tocá-los?
-Tentei antes de você chegar.
Ficamos caladas, ouvindo o barulho das águas.  Senti uma ponta de tristeza.
-Mãe? 
-Sim?
-Como faço para te ver?
- E não está me vendo?
-Quando eu sentir saudades?
-Por enquanto? Ué? Dorme. Dorme e sonha. Pede a seu Anjo da Guarda para te trazer.
-E...
-E?
-E depois?
-Não sei. Não me lembro  de ter morrido antes. Sonha. Reza. Eu continuo em vocês. Aff! Queria tanto um bisneto... Você vai me sentir na praia. Nos tomateiros. Nos flamboyants, ipês, bicos de papagaio. Nas flores de maio que plantei para você. Nas nuvens. Em Friburgo. Nas peças clássicas. 
-Não queria me separar...
-Aposto como você queria muito menos se separar de seu pai. Ele se foi...
-Mãe?
-O quê?
-Eu sempre quis que você me amasse. Sempre quis ser importante para você.
Pegando na minha mão, ela me puxou ao seu colo, abraçando-me.
-Eu também,  minha filha. Eu também.
Amanheci com lágrimas nos olhos. A medicina tradicional não sabe. Cordões umbilicais são muito difíceis de serem cortados

Friday, November 04, 2016

Nova Ariadne
(Luz... Porto)






Fui criada para ser boa. Boa filha, boa católica, boa Filha de Maria, boa aluna, boa irmã, boa esposa e boa mãe. Fui batizada, consagrada, crismada. Dos sacramentos, que me lembre, só não fui ordenada. Até quis. Deus talvez não quisesse. 
Vivi minha vida como pude. Creio que a encefalite de minha irmã caçula e afilhada deixou sequelas indeléveis em todos nós. Mais nela, que sofreu e sofre na pele. Impressionável, fiquei muito abalada e, repassando a vida neste limbo em que me encontro, talvez seja esta a razão de ter ficado mal na gravidez de minha caçula. Sonhava que ela nasceria com problemas. Mongolóide. Síndrome de Down é expressão relativamente recente. Ou que ela adoeceria como minha irmã. Naquela época engravidar na idade que engravidei era tarde. Bobagem! Mas eu e mamãe tínhamos a mesma idade quando engravidamos de nossas caçulas.
Perdoem-me se me perco no fio da meada, mas minha consciência, minha alma ou meu espírito, estão confusos e difusos. Vago por aí em busca dos meus lugares preferidos e busco tecer de novo minha história. Como ia dizendo, fiquei abalada e não fui presente na infância de minha caçula. Não em sua vida social. Acabava por prendê-la em casa para poder senti-la mais a meu lado. Isso nos afastou. Ela é sensível e se apegou mais ao pai. Agora, isso não passa de um pontinho visto do cume de uma montanha. Ou de um precipício. Ela fez as pazes comigo em algum momento. Talvez na doença do pai. Talvez na minha velhice mais acentuada. Ela nunca resistiu a um velhinho doente...
Por que falo nela? Não, ela não é minha preferida. Mas são as orações dela que me chegam em meio ao torpor em que me encontro. Ela me chama para sair do CTI e vamos a vários lugares. Atravessamos tempo e espaço. De sorte que eu a levo à praia em criança, levo-a à praça de Friburgo para vê-la andar de bicicleta, viajo de trem com ela e fazemos piquenique no Cão Sentado.
Ela sempre foi meio peculiar. Adorava Mitologia Grega em criança. E bonecas de papel. Com uma certa coleção, ela montou seu Olimpo feminino. Conhecia cada uma por seu nome grego e pelo romano. Assim acabei sabendo das Parcas ou Moiras. As três irmãs do Destino. Cloto, Láchesis e Átropos. A primeira segurava o fuso da roca, ou Roda da Fortuna, e criava o fio. O nascimento. A segunda tecia e recolhia o tecido. Determinava a Sorte ou Fortuna. A terceira cortava a trama. A morte. Curiosamente ela escolheu três bonecas com aparência de meninas. As duas primeiras tinham a boca meio aberta, em expressão de surpresa. A última era mais séria. Tinha uma estrela brilhante no penteado e carregava uma tesoura desproporcional. Escolha sensata. A vida nos surpreende para o bem ou para o mal.  A morte é que nos permite a glória da Vida Eterna.
Não me entendam mal. Não acredito em macumba ou em mitologia. Sou e sempre fui católica praticante. A experiência da quase-morte ou do limiar da morte, para ser mais exata, me fez pensar em outras coisas. Por outros ângulos. Ou talvez fale assim por estar fora de mim.
O fato é que tinha pedido uma prorrogação a Deus. De alguma forma, Ele me deu. Como a caçula pensa muito em mim, medita comigo, lembrei-me das bonecas. E das muitas histórias que contei a ela e às outras filhas. Sem dar a perceber , aproximei-me de Átropos e a envolvi com histórias mirabolantes, engraçadas, trágicas. Ela já viu de tudo,  é claro, as histórias da família ela conhece de trás para frente. O segredo está na arte de contar. Papai conheceu e era fã do Malba Tahan. Li muitos livros dele. Havia um chamado A Arte de Ler e Contar Histórias. Tornei-me uma versão bisavó de Scheerazade e barganho com ela, a que corta, minha permanência neste plano. 
Melhoro. Pioro. Tenho edemas. Desincho. Respiro mecanicamente. Tiram-me do respirador. Tenho infecção. Recupero-me. Luto para ficar. Láchesis se desespera. Não sabe o que tecer, como preencher minha existência já vencida. Nem eu mesma sei ou posso responder. Medo da morte? Culpa ou medo de deixar minha afilhada dependente? Saudades? Aprimoramento espiritual? Vontade de sofrer para me aproximar dos santos da minha devoção?  Não sei. 
Sei que passeio por aí em paisagens quase vazias. Revejo minha infância feliz, 
minhas filhas. Vivo coisas que não vivi. Nem imagino como serão minhas 1001 noites. Nem sei se chego a tantas. Talvez esteja brincando de João e Maria com o Destino para depois encontrar o caminho de volta. Talvez seja a nova Ariadne, não a que dá o fio a um Teseu ingrato, mas a que penetra surdamente no labirinto e faz amizade com o monstro carnívoro. Talvez não haja caminho. Apenas nosso rastro em alguma praia deserta...

Wednesday, November 02, 2016

E depois deste desterro...
(Luz... Porto)



    Não sei quando nasci. Não sei como nasci. Não sei por que nasci. Meu nome não é meu. É o nome de minha avó. Dizem que eu era uma criança bonita. Inteligente. Dizem... Aos cinco anos vi Santa Teresinha enquanto eu brincava. Disse que estava doida para aprender a ler. Ela balançou a cabeça e, num sorriso triste, falou: “Você nunca vai aprender, minha filha...” Contei pra mamãe. “Esquece, menina. Bobagem. Você sonhou.”
    Um dia veio a febre. Calorão. Tremedeiras. Delírios. Vi muita coisa. Só não sei dizer o que vi. Lembro pouco dessa época. Lembro de Mamãe, Papai, Dindinha cuidando de mim. Fazendo compressas. Chamando outros médicos. Rezando. Chorando. Eu estava mergulhando num lago escuro e muito fundo. Puxavam-me para baixo. Do nada veio uma mão bonita. Me ergueu. Me pôs pra fora. Fiquei secando à margem. Sem memória. Um vazio na cabeça. Desde então tudo ficou confuso. Nada mais foi igual.
    Passei a viver em um nevoeiro. Acorrentada. Tentava fugir. Gritava. Esperneava. Brigava. Arranhava. Batia nos outros. Não conseguia. Ninguém me entendia. Uma vez o desespero foi tão grande que saí à rua, me jogando na frente de um bonde. Dindinha foi atrás de mim. Só de combinação. Foi uma das vezes que ela me salvou.   
    Mamãe tinha medo de eu ser agressiva ou de eu ser mal tratada. Quase não saía de casa. Visitas, só os tios e os primos. Foram se escasseando. Bem, tinha o Dindinho da Praia. Ele brincava comigo e me dava balas. A gente se conheceu quando eu estava boa e passeava com a empregada. Ele perguntou por mim e veio me visitar. Para minha sorte, ele gostou de Dindinha e os dois se casaram. Um tempo depois ele mandou construir uma casa junto com Papai. Ela ficou pronta. Morávamos embaixo e eles em cima.
    Um dia mamãe soube de um padre que fazia milagres. Eles me levaram até ele. Era muito longe. Ele me abençoou e rezou. Fiquei calma. Por fora. A confusão de dentro ele não tirou. Fiquei mais paralisada. O que tomavam por "boa paciente" no dentista ou no médico era a agressividade que o padre prendeu em mim. Minha sobrinha uma vez a sentiu em meus músculos flácidos. Sou tomada pelo medo e paraliso. Vi Dindinha se afogando e não saía som da minha boca nem gesto de meus braços. Outra Coisa: nunca mais consegui chorar depois da febre. 
    Falavam muita coisa para Mamãe. Ela sofria, mas nunca mostrava isso pra mim. Tinha medo de não ser uma boa mãe e acabou me mandando pra escola. Eu queria tanto ir... Papai era professor e minhas sobrinhas frequentavam. Mas não gostei. Muito barulho. Eu apanhava muito. Levava beliscões. Tinha um menino que cortava a gente com gilete. Mamãe não aguentou e me tirou de lá. Nunca mais entrei em outra escola. Papai tentou me alfabetizar. Ele tentava todos os dias. Eu tinha uma coleção de letras e números coloridos em plástico. Escrevia o dia do mês, meu nome, o da minha mãe, o de meu pai e os nomes de alguns santos.
    Mamãe me levava à Igreja. Fiz Primeira Comunhão e tirei o Diploma das Filhas de Maria. Ficava na parede, em cima do rádio. Hoje não sei mais onde ele está. Mudou tudo... Íamos à Missa todos os dias. Mamãe, com seu véu negro, e eu, com meu uniforme branco e minha faixa azul. Tinha minhas amigas: Gadinha, Elza, Míriam, Gleuza, Heloísa, Yolanda. Tinha o missal e o terço. Me chamavam de santinha... Eu cantava os hinos. Gostava de cantar. Gostava muito da Amália Rodrigues. Queria ser cantora quando crescesse. Mas quando é que eu ia crescer?
    Houve um tempo em que saíamos, eu, Papai e Mamãe. Íamos até o Rio. Fui poucas vezes, mas fui. Papai comprava biscoito de leque na Colombo e marmelada. Muito de vez em quando. Uma vez ele comprou uns pratos brancos enfeitados com rosas amarelas. Eram bonitos. Sobraram poucos. Íamos às Barcas também. Era bom...
    Eu gostava de crianças. As crianças normalmente não gostavam de mim. Accho que eu as assustava. Eu nunca pude pegar nenhum de meus sobrinhos no colo. Não sozinha. Só para fotos. Tinham medo que eu machucasse o neném ou deixasse cair. Brinquei um pouco com as minhas sobrinhas. A mais nova ia lá em casa toda hora. Perguntava muita coisa. Ela queria mexer no armário que Papai fez pra mim, com cabide e tudo. Queria brincar de boneca. Queria brincar de tomar chá, eu tinha um conjunto lindo de poecelana em miniatura com duas xícaras, uma leiteira, um bule e um açucareiro. Ficava numa bandeja de vidro. Ela mexia. Eu não gostava. Mas algumas vezes tomamos chá juntas.
    Um dia Papai foi embora. Ouvi um grito. Ele estava no jardim. Mamãe ficou comigo no quarto. Não podíamos ver nada. Depois ouvi um barulho. Era a ambulância. Levaram papai pro hospital. Foi um tumulto grande. Minha irmã do meio, que eu não via desde o batizado de minha sobrinha mais nova, apareceu com os filhos. Estavam grandes. Brincavam de arco e flecha. Quase quebraram um retrato na parede. Dormiam na sala. Ficaram um tempo e foram embora. Veio o aniversário da sobrinha caçula. Ela adora festa. Não teve nada. Mandaram ela pra casa de umas primas. Depois ela veio brincar comigo. Papai tinha morrido. “E ido pro Céu”, Mamãe garantia.
    Não chorei. Não choro. Não sei onde fica o céu. Só sei que Papai nunca mais apareceu. Mamãe chorava escondida de manhã cedinho. Longe de mim. Só o Dindinho via. Mamãe tirou uma cadeira, um prato, um copo e um jogo de talher de cada mesa. Aqui e em Friburgo. Ficaram três lugares: o meu, o de Mamãe e o da minha sobrinha. Ela vinha todos os dias para a sobremesa. Vinha em outras horas também.
    A vida continuou. Continuei com minhas letras, hinos e Missas. Mamãe teve pressão alta e eu precisei gritar para pedir ajuda. Passei a dormir com ela. Eu tinha algumas bonecas e passei a ganhar mais. Umas ficavam aqui, outras, em Friburgo. Minha sobrinha reclamava que eu não brincava com elas. Elas faziam penitência. Eu amarrava as mãos, os pés, punha uma venda elas ficavam viradas para baixo dentro do armário. Eram Maria Cecília, Maria Jacinta, Maria Melânia. Minha sobrinha perguntava o porquê. “É preciso sofrer pra ir pro Céu”, eu respondia, com um gosto amargo na boca.
    Se eu acredito em Deus? Não sei. Não sei quem é Deus nem o que Ele é. Conheço algumas histórias santas. Gosto de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora de Lourdes. Gosto mais da Pastorinha mais nova, Jacinta. Ela fazia penitência. Se Nossa Senhora existe? Não sei. Talvez a gente seja os bonecos que Deus amarra e cega. E deixa trancado no armário por anos a fio. Deus não deve gostar da gente...
    Tinha um jardim na nossa casa. Nós caminhávamos e tomávamos sol de manhã. Primeiro eu, Papai e Mamãe. Depois, só eu e Mamãe. Dindinha plantava flores, árvores, mato nele. Uma ocasião meu nevoeiro ficou denso demais. Eu andava tropeçando em tudo. Não entendiam. Então comecei a arrancar cada fio de minhas sobrancelhas. Mamãe ralhava. Não adiantava. Era mais forte do que eu. Quando acabei com as sobrancelhas, passei a tirar minhas pestanas. Doía. Machucava. Mas eu sabia que estava viva. Ou melhor, que não estava no fundo do lago escuro. Minha sobrinha viu e falou com Dindinha e as irmãs. Me levaram a um médico. Comecei a tomar um remédio. Parei de me ferir. Passei a sentir menos. Fiquei mais parecida com um robô.
    Um dia mamãe caiu no banheiro. Gritei. Vieram todos. Mamãe não falava. Chamaram um médico. Falaram em derrame. A mesma palavra que usaram com Papai. Mamãe mal se mexia. Falava uma ou outra palavra. Gemia. Sei que sofria. Às vezes gritava. Eu ficava ao lado dela. Não queria que ela se fosse. Veio uma moça boazinha ajudar Dindinha. Dindinho passava as noites na sala pra ajudar.
    Mamãe piorou, foi pro hospital. Não sei quanto tempo ficou. Quase dois meses? Arrumaram o quarto de outra sobrinha que se casara. A do meio. Passei a dormir na casa de Dindinha. Falaram que Mamãe estava no Céu. Fiquei com medo. Medo e saudade. Mas eu não sei sentir. Não chorei. Não choro.
    Dindinha passou a cuidar de mim. Aprendi muitas coisas. A tomar banho sozinha, a me vestir, a me calçar. A tomar água quando eu quisesse. A falar no telefone. Dindinha nadava. Passou a me levar à praia com ela. Não sei nadar, mas entrava no mar. Fiz amigas. Uma delas fez uma boia pra mim. Eu estava corada. E feliz. Até festa de aniversário na praia eu tive!
    Dindinha estudava comigo. Passava lição de manhã. Eu tinha de copiar o que ela escrevia e depois ler. Eu não lia. Santa Teresinha me avisou. Eu só decorava. Eu tinha cadernos. Eu preparava os cadernos e enfeitava pra mandar pra minha irmã do meio que morava longe. Eu tinha lápis. Apontador. Borracha. Lápis de cor. Eu tinha férias... Eu tinha bonecas que não pagavam penitência.
    Depois de Nossa Senhora de Lourdes levar minha irmã do meio, chegou a vez do Dindinho. Ele passou mal. Veio a ambulância cedinho e levou ele pro hospital. Tenho medo de hospital. Horror a hospital. Ele ficou um mês e meio e voltou. Voltou esquisito. Perdi meu quarto. Ainda bem que já dormia com Dindinha. Puseram uma cama de hospital, uma poltrona e outras coisas lá. Dindinho não falava nada. Ficava com uma mão amarrada, usava fralda e tinha um tubo na barriga. Fazia xixi num saquinho. Não gostava de olhar. Não queria ver Dindinho pagando penitência. Pra quê Deus fez a gente? Pra sofrer? Minha sobrinha cuidava dele. Ela e umas moças que não falavam direito comigo.
    Depois de um ano ele se foi. Não chorei. Não choro. Tempos depois perdi o controle da urina. Passei a fazer xixi na cama e a usar fraldas. Com o tempo, paramos de ir à praia e à Igreja. Dindinha estava cansada. Não tinha mais jardim. Ficávamos no quarto grande, no meu quarto, onde escuto rádio ou na cozinha. Não tenho mais onde pegar sol. Sou chamada de vaca, porca, vagabunda, retardada. Dindinha tentava me proteger, mas ela foi pro hospital de ambulância. Vai fazer dois meses.
    Diziam que a casa de baixo era minha. Não entro lá há muitos anos. Acho que um tempo depois que Mamãe morreu. Não sei mais dos móveis de Mamãe. Nem do cheiro de limpeza. Mandaram minha sobrinha do meio ir morar lá. Nem sei onde foi parar o álbum de fotos de Mamãe que só nós duas pegávamos.
     Também diziam que Papai fizera a casa de cima de Friburgo pra mim. Minha sobrinha mais velha é que vai lá. Ela nunca mais me levou. As pessoas que eu conhecia desde sempre já morreram. Eu gostava de Friburgo. Mais fresco. Passávamos as férias lá, eu, Papai e Mamãe. Ficávamos até a Páscoa, passeávamos muito. Recebíamos visita. Íamos até o Suspiro. Depois eu ia com Mamãe e, depois, com Dindinha.

    Agora não saio. Muito pouco. Não me visitam. Quase nunca. Mas eu não sou uma criança bonita e inteligente? O nevoeiro não me deixa ver. Não sei mais o que vejo no espelho. Um rosto que não é o meu. É o de uma velha. E Dindinha? Não volta? Deus, será que você está fazendo ela pagar penitência? Ou você vai levar ela pro Céu também? Não sei o que é o Céu nem onde ele fica. Talvez no fundo de um lago escuro. Quem vai cuidar de mim? Quem vai ler pra mim? Quem vai velar pelo meu sono sem sonhos? Todos se foram. Não tenho nada. Nem ninguém. Mas quando alguém me disser que Dindinha foi pro Céu, eu não vou chorar. Eu não choro. É a minha penitência.

Monday, October 17, 2016

MÃE E FILHA

(Luz... Porto)


 Esta poderia ser a pequena Norma, se, em 1925 ou 1926, as mães vestissem assim suas filhas ou se o clima de Friburgo, ainda que no verão, permitisse a pouca vestimenta. A beleza de foto foi pescada em algum lugar. Não faço ideia de onde. Ela foi pescada, provavelmente no pior Dia das Crianças de minha vida. Sempre gostei do Dia das Crianças. Doces, presentes, bagunças, até que o Papa João Paulo II oficializasse a data como o Dia da Padroeira do Brasil. Feriado que se juntava, às vezes com o Dia dos Professores . Uma burra velha dessas acostumou-se a celebrar o dia na família, depois na escola, e, por último, sempre usava aquela conversa mole de caçula para conseguir o que queria: um LP! Felizmente, namorados houve que aceitavam a tradição.
  Este ano de 2016 foi muito diferente. Mamãe, recém-saída do CTI, não me reconheceu. Que decepção! De mãos dadas comigo, prescrutava-me com o olhar inquisidor. Não obstante, algo aconteceu. Naquele quarto de hospital, nos olhávamos, suspensas no tempo e no espaço. Não, mamãe não falou comigo. Não estava falando. Não me cheirou, como um bicho à sua cria. Nossas almas estavam em sintonia e se reconheciam. Não pela forma, mas pela essência. Naquele momento de reencontro, eu era a mãe, sorridente, e ela, o bebê recém-nascido, desconfiado. Que chorava para alargar os pulmões. E como precisava alargá-los... Não tive vontade de me afastar dela. Seria tudo novidade. Comer, beber água... Canudo? Um luxo! Ela mal tinha fôlego de chupar. Era na seringa mesmo. Que ela sugava como um filhote. Cercavam-nos músicas, melodias e canções de outra época. Música das esferas. Mãe e filha se alternando. Os vínculos permanecem. A energia também.
  A “ausência” de mamãe nesse plano, a falta de conexão, permitia que ela vagasse em outra dimensão. À qual eu tinha acesso, de alguma forma. Naquele momento de beleza, oscilei entre a dor da partida, que sentia cada vez mais iminente, e a felicidade de um renascimento; a fé de que em uma existência paralela, ela estaria curada, leve, solta. Eu, presa neste corpo, insistia na comunicação física. Tola... Não somos corpos que têm um espírito. Somos espíritos que têm um corpo. Transitório.
  Como acredito em sincronicidades, não em meras coincidências, na véspera, passando pela rua, muito cansada, sou surpreendida por um conjunto de músicos. Da Orquestra da Grota. Um teclado, um violoncelo e dois violinos. Não me lembro das melodias tocadas. Senti-me impelida a parar, por cerca de meia-hora, e a ouvir o que executavam. As notas penetravam em meu corpo exausto e as lágrimas escorriam. Canções que mamãe tocara, outras de que ela gostava e, pasmem! MY WAY! Ninguém que conheça mamãe poderá associar um dos grandes sucessos de Sinatra a ela. Eu o fiz. Mamãe fora a filha obediente, a mulher que obedecia, em parte, ao marido. Na esquina em que me encontrava, um anjo travesso, desses que a visitaram em um dos chamados “delírios”, me sorriu maroto e cochichou: “Preste atenção à letra”. Fui me lembrando de pedaços e cheguei à conclusão de que muitas coisas ela fizera “her way”, ou seja, à sua moda. Alguém que decide nadar aos 55 anos e nadou muito, praticamente todos os dias, por mais de 30 anos, indo até uma ilha não tão próxima assim, que, mesmo “atropelada” por um barco a remo, não abriu mão de sua praia, há de ter sua teimosia e persistência. Alguém que decidiu caminhar novamente por Niterói, e andava do Gragoatá até São Francisco, via Estrada Fróes, “abocanhou mais do que conseguia” e terminou sendo proibida de suas andanças pelo cardiologista. Pena... Ela era feliz assim.
  Pois tudo isso estava presente em meu coração naquele encontro inesperado. Ela não tirava os olhos de mim, nem eu os meus de seus olhos de gato, de cor indefinida, a que eu sempre chamei de amarelos. As mãos, tampouco, se separaram, e, suponho, tenha lhe contado dos músicos de rua e transmitido as peças tocadas, mas não com a voz. Com aquela comunicação única e solitária que existe entre a mãe e o seu filho, primeiro dentro da barriga, e, depois, fora, antes que o bebê comece a se inteirar com o ambiente e com outras pessoas.
  Talvez fôssemos anêmonas vagando pelo líquido amniótico, cavalos marinhos, estrelas-do-mar, ou criaturas primitivas na aurora dos tempos. A tristeza de não ser reconhecida foi substituída por essa experiência quase lisérgica e intransferível. Os que estavam à volta não a perceberam. Acreditavam que mamãe estivesse se comunicando nesse plano pelo simples fato de ela repetir a última palavra do que lhe era perguntado. Não perceberam a dificuldade e o sofrimento de estar buscando palavras que expressassem um determinado sentido ou buscando um sentido para o que ouvia.

  Seguimos assim, por um bom tempo, não medido pelo relógio, nem por colherinhas de açúcar, à moda de T.S. Eliot. Ela me perguntava, como o protagonista de The Love Song of J. Alfred Prufrock, “Do I dare?”, isto é, “Como ousar?” Tentei lhe dizer que ela estava livre para ousar, para voar, se libertar e buscar uma nova vida. A que ela considera eterna e que outros consideram apenas mais uma no estágio de evolução e aprimoramento do espírito. Permanecemos nas mansões do mar em abandono e entrega mirando a nós, duas ondinas com grinaldas de algas bem verdes, até que vozes demasiadamente humanas nos despertaram e naufragamos*. 

*A última frase é uma tradução e adaptação (mal) feitas de THE LOVE SONG OF J. ALFRED PRUFROCK, de T. S. Eliot. Usei-a por expressar o que eu estava sentindo.

Sunday, October 02, 2016


SÚPLICA

(Luz... Porto)


Tudo na vida tem um ritmo. O vento nos milharais. O vento no matagal. O ritmo das chuvas. O mar... Esse mar com quem fiz as pazes tão tarde... Comunhão que levou mais de meio século para ser firmada. Só eu e ele.  As ondas do mar. Insondável mar. Ora sereno, ora bravio. Não, não acredito em orixás. Macumba é coisa contra a Igreja. Minha filha não gosta da minha atitude. Diz que é preconceito. Diz para eu não mexer nas flores nem nas ofertas. Macumba! Crendice popular! Ela me acharia filha de Yemanjá. Não tocamos no assunto. Ela tem umas ideias estranhas agora.
Chega perto de mim e sorri. Sei que ela chora muito. Foi assim desde pequena. Uma manteiga derretida. Ela me contempla com serenidade. Reza, diz que me ama, pede a bênção. Ela sabe que eu estou sofrendo. Alisa meus cabelos e me beija. Não sei o que ela vê. Sei que vê algo mais. Ela quer ficar quieta a meu lado. Sinto isso. Lembro-me dela criança. Bem criança. Agarrada a mim. Se deixassem, ela passaria horas no CTI só segurando a minha mão. Sei que é difícil pra ela me ver assim.
Queria alguma coisa que trouxesse meu ritmo de volta. Um metrônomo, talvez. Quem sabe o ar não fluiria na inspiração e na expiração sem obstáculo? Quem sabe o coração não bateria ao som das baladas da Catedral, das Ave-Marias, bombeando sangue novo, limpo e fresco? Quem sabe... Quem sabe a música não me voltaria, os movimentos das mãos deslizando pelo teclado, os pés nos pedais?
Nada... Minha filha acredita que estamos no Purgatório. Deve ser coisa de espírita. Ela anda metida em umas coisas, eu acho. Batizei -a com onze dias de nascida para isso... Isso não pode ser o Purgatório, mas o CTI é. Tempo sem tempo. Tortura chinesa. Luz, barulho. Máquinas apitando. Um trem que nunca parte. Não sabemos se é dia, se é noite. As horas parecem eternas. É uma prisão dolorosa. As enfermeiras falam alto, há barulho, gente gemendo, gritando.
Uma das médicas me deu um outro remédio para dormir. Estou cansada. Quero dormir. Depois de anos com meu antidepressivo e meu ansiolítico essa cretina se mete a besta e troca. Bastou. A confusão mental piorou. Apitos. Músicas dissonantes. Frequências estranhas. Parece que vou enlouquecer. Não ligam. Penso na minha mãe e na minha filha mais nova. Mamãe ficou surda ainda moça e reclamava de ouvir barulhos. Chegamos a comprar um aparelho de surdez que ela nunca usou. Minha filha teve várias otites e um tímpano perfurado. Lembro dela sem dormir, desesperada, chorando, com os barulhos na cabeça. Melhorou com a homeopatia, mas até hoje tem problemas com certos sons. Talvez eu não tenha dado a atenção que as duas mereciam. Elas pareciam se entender. Tanto que Mamãe, que não admitia nada fora da rotina, aceitou que essa neta dormisse na casa dela em Friburgo. Menos mofo. Menos alergia. Menos problema de ouvido. Acho que elas se entendiam a seu modo.
Cochilo e acordo sobressaltada. Morri? Quando vão me tirar daqui? Estou toda roxa. Não há  veia mais para pegar. O ar é muito frio. Não me cobrem direito. Eu estou sem roupa embaixo das cobertas. Um ultraje! Morro de vergonha, mas não tenho forças. Alguma coisa ainda me prende. Será Henriette? Será o medo da morte? Já pedi para mamãe me levar. Mandam me calar. Não são eles que sentem a dor, a confusão, o isolamento. Não acredito que volte para o quarto nem que saia daqui. Minha filha disse que me emprestou o anjo de guarda dela... Que tolice. Mas achei bonito. Ela vem arrumada. Não quer que eu pense que ela não está bem. Sei que não está. O pai ela visitava todos os dias. Visitar a mim é mais difícil. Os tempos são outros... Envelhecemos todos.
Ai, minha Santa Cecília! Não costumo invocá-la. Não poderias me clarear um pouco a cabeça e preencher essa noite sem fim por que venho passando com os clássicos? Chopin, Debussy, Lizst? Santa Teresinha de Lisieux, eu te homenageio desde o meu nome até o nome de cada filha e da sobrinha, tu que desejas passar o teu céu fazendo o Bem sobre a Terra, não podes aliviar o meu fardo? Queria sentir tua presença a meu lado com o olor das rosas...
A porta se abre. Vozes. Mais um dia de visitas. Até quando...

Friday, September 30, 2016

MUT(D)A AÇÃO

(Luz... Porto)




E a larva
Que traz em si
A semente
Tem medo
De dormir para sempre
Não sabe
Que de seu ventre
Sairá
Só(mente)
A borboleta
Jamais sonhada

Thursday, September 29, 2016

BOA NOITE, MÃE!

(Luz... Porto)


Tento dormir. Está difícil. Mais ainda pra você, eu sei. CTIs são um avanço, mas são tão frios... Tem a luz acesa o tempo todo. Como você nos atormentava em criança e na adolescência! Não se podia acender uma luz na casa que a réstia entrava sorrateira e te acordava. Acabamos aprendendo a driblar você.
Vamos conversar? Eu queria te contar uma dessas histórias que você nos contava. Não tenho os livros aqui. Os daí foram devorados pelas traças. Vou te contar o que fiz ontem. Na minha prática energética, surgiu uma meditação conduzida pela orientadora. Tão linda,mãe. Chega perto que eu te acaricio os cabelos até adormecer como eu fazia em criança. Pensei que tivesse esquecido, mas foi só minha mão adentrar seus cabelos que teimam em não embranquecer, que meus dedos redescobriram o caminho. Caminho só possível em suas melenas. Meus dedos ainda conhecem cada onda, cada curva...
Mas, vamos lá. Vou contando, acariciando os cabelos e dormiremos mais leves. Primeiro eu tinha de me conectar à terra, fincar minhas raizes. Pela primeira vez, senti a lama, o barro. E o cheiro de terra depois da chuva. Sabia que você estava a meu lado. Deveria imaginar a cor azul, mas veio o marrom. Não sou muito obediente na prática, como você deve perceber. Depois de brincar com as plantas, de criar com o barro, de me sentir uma árvore, criei uma ponte. Como me antecipo, já fui colorindo a ponte que era... Sabe o quê, mãe? Um arco-íris. Eu pude atravessar o arco-íris para te ver! Lembrei de Malba Tahan e do livro A Sombra do Arco-Íris. Como gostávamos desse romance! Lembrei também de você me contando O Mágico de Oz, o filme. Eu gostava era do livro. Só aprendi a apreciar Judy Garland muuuuito mais tarde.
Cruzei feliz e saltitante esse arco-íris, levando pedaços de cores e de nuvens até seu coração. Plantei nele uma rosa que floresceu! Uma rosa vermelha, igual à que trago em meu peito, com o miolo dourado. Precisei de uma redoma para evitar que a dor, maus pensamentos, ressentimentos, tristezas ou medos a fizessem fenecer. Consegui uma linda. Com um puxador de ouro. De tão bonita que é até dói de olhar muito pra ela. Mas é dessas dores boas, mãe. Dessas que deixam os olhos úmidos e um sorriso na boca.
Ela coube direitinho no seu coração junto às cores que trouxe do caminho para te alegrar. Não resisti e afastei o que mais havia em seu peito para me fazer pequena e voltar a me aninhar nele. Não interessa o que você leva em seu coração! De agora em diante, não saio mais dele e ponto! Ou você acha que atravessar um arco-íris é fácil? Depois te ensino. São muitas cores! É alto e cheio de nuvens. Quase trouxe pra você o Florzinha das Alturas, mas ele não aguentava de saudades da Emília e foi dar um pulinho no Sítio do Picapau Amarelo. Naquela casinha branca que tantas vezes imaginei. Quando a gente está em um Arco-Íris, é difícil caminhar. A gente só quer se misturar às cores e ser luz. Eu só atravessei porque senti que seu coração esperava por mim.
Vamos aproveitar, pegar uma toalha quadriculada e ficar lendo sob um flamboayant? Rá! Tinha flamboayants pelo caminho. A gente leva chá, pão de minuto, broa. E fica lagarteando, como Pedrinho fazia.
Depois? Depois eu tive de voltar, de me despedir de você. Mas não sou boba nem nada! Dobrei o arco íris bem dobradinho e guardei em meu peito. Agora sigo as estrelas para voltar à minha cama.
Os olhos já me pesam. E os seus, mãe? Pode deixar que não saio de perto até você adormecer.
Boa noite, mãe.
Sua filha,

Wednesday, September 28, 2016

COMO GOTEJAM OS SOROS...
(Luz... Porto)

Mal cochilara, acordara. Jurava ter ouvido um riso e barulho de grades. “As pessoas não respeitam mais nem os hospitais”. Aliás, como eram horríveis as noites em hospitais. Ela passara várias. Cuidara do avô, Carlos, ainda bem jovem. Não havia CTI. Ele, em coma. Grande aflição. Dormira com a  avó Irene, com o pai. Tantas vezes com o pai... Cuidara de uma de suas irmãs também. A solidão dos corredores, ocasionais passos rápidos, o relógio na parede. Seus ouvidos eram sensíveis e o tique-taque quase inaudível soava-lhe como tortura chinesa. Outra tortura, o soro. O gotejar do soro. Era preciso vigiar, acomodar a mão do paciente. Vigiar e orar. O  soro sempre acabava à noite e não se achava enfermeira para trocá-lo.
De novo o riso. Alerta, agora, divisou na penumbra sua mãe sentada e rindo, cochichando. “Mãe? Você tá bem?” “Tô conversando com um menino lindo! Olhos azuis, cabelos louros, cacheados. Ele corre de um lado para o outro.” “Não tem menino nenhum.” “Claro que tem! Você não vê? Ele não quer me dizer o nome...” “Você tá vendo coisas. Cuidado com o soro! Não se mexa muito!” “Quero ir ao banheiro.” “A enfermeira falou para você fazer na fralda.” “Não consigo. Ora, bolas! Não parei de usar fraldas antes de um ano para passar esse vexame burra velha! Me leva já!” “Calma! Preciso pegar o soro.” “Aaaaaaai!” “Machucou?” “O macaco! Você não viu? Acho que é um gorila. Tenho medo! Tira ele daí, tira! Não gosto de macacos!” e apertou os olhos, puxando as cobertas para si.
Achou por bem chamar a enfermeira. Puxou a campainha e... nada! Apertou o botão. Esperou. Foi até o corredor. Vazio. Posto de enfermagem. Ninguém. “É um pesadelo. Só pode ser.” Ao voltar viu a mãe com as pernas presas na grade. “Me tira daqui. Isso não é um hospital. É uma loja maçônica. Eles são contra a Igreja.” “De onde você tirou isso?” “O homem acabou de subir as escadas e falou bem alto. Fez um discurso.” “Calma. Vou tentar te tirar daí. Cuidado com o soro...” com muito custo, os ossos lhe doíam, os ossos da mãe doíam, tirou as pernas da mãe da grade. A mãe reclamava. Queria ir para a sala, sair da cama, verificar se a porta estava fechada, rezar junto à Santa Rita. Ela, que presenciara esses hábitos por mais de quarenta anos já quase esquecera da Santa Rita colada à porta da frente, presente da tia Cassinha, homônima à Santa. “Use para evitar que ladrões e o mal entrem em sua casa.”
“Vai acabar a água...” “Como assim?” “A torneira em cima da televisão está aberta. É muita água...” Mudando de abordagem, abriu as cortinas, empoeiradas para um hospital, pegou a escadinha da cama, subiu. “Vou fechar.” “Que bom, minha filha.” “É aqui?” “Você precisa ver esses óculos. Não tá enxergando nada! Não, né? Mais pra cima... Isso. Pro lado.” Ficando na ponta dos pés, alcançou a torneira imaginária e a fechou. “Imagina se seu pai estivesse aqui. Ele teria ataques. Detesta que falte água”. Ela se lembrou do pai. Nordestino, trazia o medo da seca em seu DNA. Seca que ele não sofrera de forma direta, mas cuja devastação presenciara na figura dos retirantes. Aposentado e com a mudança da rota da CEDAE, ele travara amizade com o “homem da água”. O São Pedro fluminense que trazia à cintura as chaves das bombas de rua para acioná-las e garantir a distribuição. Os vizinhos batiam à porta do pai. “Seu Paulo, é hoje que cai água? Que horas?” Lá ia o pai para a caixa onde ficava a bomba, ao pé da ladeira. Que aflição ela sentia ao ver o pai, meio gordo, descer a escadinha mal iluminada e sumir no buraco para ligar a bomba! Seu camarada, o da CEDAE, mandara fazer uma cópia da chave e o pai evitava assim que os vizinhos ficassem com as cisternas vazias e que reclamações fossem feitas à empresa. Saudades desse tempo...
“Ouça, minha filha. Uma festa! Cada música que tocam... Falta de respeito!” “Onde, mãe?” “Na casa ao lado. Cruz credo! Música dos infernos!” A mãe se benze, tapa os ouvidos e balança a cabeça. Súbito, senta-se empertigada, leva a mão direita ao peito e começa a entoar: “Allons enfants de la Patrie, le jour de Gloire est arrivé”. A filha canta também. Admira-lhe que com essa idade a mãe se lembrasse da Marseillaise inteira. “O que foi isso, mãe?” “Ah, chegou um homem importante. Cantaram um hino e agora ele discursa no palácio.” “palácio?” “Sim. Do Estado do Rio. Você não vê?” “Tem uma árvore na minha frente, mãe.” “Saia daí. Nossa! Quanta gente na rua. Acho... acho... A guerra acabou, minha filha! Que alívio!” “Nem fala, mãe. Amanhã falo com tia Neném e Cocó. Vamos fazer um coq au vin para celebrar!” “Com tarte tatin? Que bom, mãe!”
“Me leva ao banheiro?” “Levo.” Equilibrando-se entre amparar a mãe e manter o soro no alto, acompanhou-a ao banheiro. A mãe sorria, embevecida. “Você não vai me dizer o seu nome?” “Eu?” “Não, menina! O garoto de olhos azuis trouxe uma garotinha pela mão. Linda, toda arrumadinha! Os cabelos brilham ao sol...” “Quem é ela?” “Parece Henriette aos dois anos de idade. Vem dar um beijo na Dindinha. Epa! Ela não está sozinha. São duas. Gêmeas!” “Vamos voltar pra cama com cuidado, tá?” Com alguma dificuldade acomoda a mãe ao leito e prende o soro ao suporte na parede. “Que hospital! A que ponto chegou a saúde no Brasil!”
“Ele está desenhando.” “O menino?” “Sim.” Fazendo o gesto de quem recebe uma folha, exclama: “Nossa! Que beleza! Mas... É Friburgo!” Os olhos ficam úmidos. “Friburgo, mãe?” Mostra o desenho à filha. “Claro! Você não reconhece?” “Estou sem óculos.” “Pois é. Vocês todas herdaram a minha miopia... Veja bem. É bastante sofisticado para um menino pequeno. Ele desenhou um lago cercado por aquelas árvores de Friburgo. Eucaliptos. Aqui tem as montanhas. Parece o Cão Sentado. Nunca tinha visto por esse ângulo. Papai nos levava para piqueniques. É lá, eu sei.” A expressão da mãe se modifica. Há um ar de travessura. “Que houve, mãe?” “Ele mergulhou no lago. Está acenando pra mim.” Levantando os braços, fez um gesto de mergulho. “Não! O soro! Olha, vamos fazer assim. Lembra quando você quebrou o braço e nadava com ele pra cima, enrolado em um plástico?” “Sim. Foi legal. Você tá achando que eu tô gagá? Tenho memória!” “Então... A brincadeira é assim. Vou amarrar esse braço à sua cintura e você toma esse pedaço de atadura. Faz o mesmo com o menino. Vocês têm de ver quem nada melhor amarrado.” Pegando a atadura imaginária a mãe falou “Você só tem ideia besta. Brincadeira sem graça! Menino, vem cá. Preciso te amarrar. É uma brincadeira sem graça que minha filha inventou. Como? Não dá pra nadar? Vamos ver quem boia melhor. Nossa! Como a água está fria!” Encolheu-se na cama e sorriu. “Friburgo... Já estava esquecendo... Água fria. Agora as nuvens passaram e o sol brilha a pino. Que lindo! Daqui vejo as árvores, as montanhas. Posso até fechar os olhos que continuo a ver. Entra aqui, minha filha.” “Não sei nadar...” “É verdade! Um absurdo eu ter filha que não nada. Duas! Você não sabe o que está perdendo...”
Passados alguns longos minutos, talvez meia-hora, a mãe grita. “Volte aqui! Minha filha, ele está correndo! Me diz seu nome, Espera por mim!” “Vai atrás dele, mamãe. Não esquece que o braço está preso.” “Ele está entrando por uma porta grande” “Onde?” “Aqui.” Apontou a parede. “Entra, mãe.” “Que lindo... Meu Deus...” Começou a chorar. “O que foi agora, mãe?” “É a sala de vovó. A casa de vovó. Estão todos aqui. Nacele, tia Neném, Cocó, mamãe. É Natal! Tem uma lareira acesa. O fogo crepita.” “Está frio? Aqui dentro, não. Estou com um vestido de veludo grená, uma fita nos cabelos, sapatos de verniz e meias brancas. Vovó está viva! Quero abraçar todo mundo.” “Abraça, mãe.” A filha com a voz embargada imagina a cena, entre emocionada e aterrorizada com duas possibilidades terríveis: Alzheimer ou a morte iminente. “O pinheiro de Natal está lindo. Papai o enfeitou. Sei que foi ele. E o presépio? Tem até moinho com água. Não vejo papai. Nacele está com um vestido de veludo verde. Combina com os olhos dela. Os sapatos também são de boneca. Quem é aquela? Ih. É mamãe. Tão elegante. Senta-se ao piano e toca Chopin. Nem me lembrava mais que ela também tocava...” “O que ela está tocando?” “A Pollonaise.” Mãe e filha acompanham a melodia com a mão. “Epa! Ela continua a música. Improvisa. Faz variações. Parece mesmo uma concertista. Emocionante, minha filha! Todos a aplaudem.” Seca os olhos. A filha já se esquecera que fora a avó a responsável por buscar a formação musical da filha mais velha. Único luxo, aliás, que a avó permitira na vida familiar árdua e difícil que tivera.
“Oba! Hora da ceia! Tanta coisa gostosa! Fios de ovos! Chuviscos! Lembra dos doces de Nenga e Cota?” “Inesquecíveis.” “Quer um pedaço?” “Claro!” “Tem peru, frango, porco, arroz, farofa! De lamber os beiços! Xiii! Vão botar a gente pra dormir... Não quero!” “Obedeça sua mãe.” Quem sabe assim ela não sossega, indagava-se a filha exausta. “Ei! Está escuro. Tudo escuro. Só a lareira acesa. Não! Não acredito! É ele! Papai Noel! Papai Noel, quero um beijo. Vamos atrás dele, Nacele. Droga! Fugiu. Todo ano é assim!” “E agora?” “As luzes estão acesas. Vamos abrir os presentes. Não acredito!!!! Ganhei uma casa de bonecas! Linda! Perfeita! Tem todos os cômodos. Tem móveis. As portas têm maçaneta e abrem. As janelas também. Meu Deus! Tem descarga no banheiro! Com água!” “O que Nacele ganhou?” “Um cavalo de madeira. Lindo! Ele balança. Os olhos brilham. Ei, menino. Volta aqui.” “Ele está na festa?” “Sim. Está me dando uma caixa de lápis de cera. Estamos desenhando perto da lareira. Me diz seu nome. Queria tanto que ele dissesse: Jesus, minha filha...” “Pode ser outra criança, mãe.” “Que maçada! Hora de dormir. Deixa eu ficar mais um pouco, mãe. Ela não deixa...” “Melhor obedecer” “Ih! Ganhamos pijamas novos! O meu tem um urso. O de Nacele tem um cachorrinho. Mamãe, quero dormir com a casinha, deixa. Não, não vou brincar. Só quando acordar. Tem lugar aqui ao pé da cama. Deixa, vai?” “O que mamãe Irene respondeu?” “Ela desceu e está subindo com os brinquedos. Tomara que amanhã faça sol. Vou ver meu jardim, cheio de rosas, margaridas, begônias. Bênção, mãe” “Isso, mamãe. Vê se descansa agora para poder brincar muito.”

A mãe fechou os olhos sonolenta. “Que noite! Outra dessas eu não aguento!” Ia voltar para o sofá e descansar o corpo quando ouviu um risinho. “Ele respondeu.” “O menino?” “Ele se chama Carlinhos...” Enternecida viu a mãe adormecer em sono profundo com um sorriso angelical nos lábios.