Sunday, May 22, 2011


Serra Da DesEsperança

(Luz... Porto)

Tiraste-me o consolo,

Plantaste-me olheiras,

Baniste-me de teu peito,

E reclamas minha ausência?

Feriste-me a essência

Mais íntima de mim mesma,

Faltaste-me com o respeito,

Aos meus ofendeste

E queixas-te do exílio?

Se a mim fecharam-se os portos,

Como aspiras a meu Porto Seguro?

Condenada a vagar no escuro,

Acostumei-me a deitar com porcos

E a com eles comer farelos.

Sem o ponto luminoso em teu olhar,

Para quem minhas berceuses vou cantar?

Amputada, sigo meu caminho.

Caio, arrasto-me e vou sozinha.

Naufrago em meu vale de lágrimas

E a meu anjo da guarda

Confio, triste, meu soçobrar.

Saturday, May 21, 2011


Pessoal e Intransferível

(Luz... Porto)

Nestes versos sem rima,

No poema sem ritmo,

Meu coração arrítmico se espraia.

Nesta ode sem metro,

No metro quadrado de meu corpo,

Eu, ectópica, desterrada estou.

Em minha cantiga sem amigo,

Sem amor, sem escárnio, só tédio,

A passagem das horas se demora.

Tênue linha que separa meu Rio do teu,

Onde o pôr-do-sol, lânguido, se alonga,

Mas em que não me banho,

Rio que não mais visitas.

Neste meu corpoterritório

A cartografia do desejo

Não passa de borrões desbotados

A desenharem um jardim de delícias

De que pouco desfrutaste.

Meus vales de onde jorram leite e mel

Secaram com teu descaso.

E se foi isto o que o Acaso quis

Pouco se me dá neste ocaso:

Sou eu esta morta-viva

Que no Letes se afogará.


Ulisses

(Luz... Porto)

Bardo cego

A quem as Musas a visão tomaram,

Sei que pouco vês.

Mas bem mais que meus olhos cansados

Consegues fazer.

Vate sagrado

De cuja existência alguns duvidam,

Bem sei – e como!- o quanto existes

Mas nesse meu degredo

Às vezes penso que de alma penada

Não passas.

Eu, sem-terra, sem-amor, sem-filhos,

Expatriada desde antes do ventre materno,

Em ti vislumbrei minha remota Ítaca.

Icei âncoras, inflei velas,

Embriagada rumei para teus braços.

Porém, Circe que eras,

Em felino me transformaste.

E hoje sonho a vida que não tive

Ou vivo o sonho a que me condenaste.


Abduzida

(Luz... Porto)

Meu dileto vate,

Por que em vão te abates?

Não sabes que o querer

Nem sempre é poder?

Larga os teus ciúmes,

Deixa de queixumes,

Vem cá nos meus braços

Te perder em meus abraços.

Brinquemos, folguemos, mão na mão,

Enquanto , curto , nos dura este verão.

Se minha rima é pobre,

É que minh’alma se recobre

De casto pudor. Rubra, pueril,

Nunca sabe ao certo ser sutil.

Toma-se de pejo

E afoga o seu desejo.

Prefere, parva, se calar

Ao coração deixar falar.

Se a ti não cabe a posse

Pra que a alma se renove,

Vê que, mesmo de ti cativa,

A mim não me pertence minha vida.

Sunday, October 03, 2010










QUICKSAND
(Luz... Porto)




“A gente se cansa de ouvir: ‘Eu te amo” e depois ter de trocar duas vezes a mesma obturação.” Enquanto lavava o rosto para afastar o cansaço, já quase crônico pregado à sua alma desesperançada, ela pensava na frase dita em “off” pela amiga.
Sim, ela também estava cansada. Não de visitas ao dentista; na verdade, não de visitas médicas. Cansada de chorar, de lutar contra o inevitável. Cansada de estar sempre errada, de ter um discurso “vazio”, de falar, falar e não dizer “nada”. De relevante.
Cansada de ter se rebelado tanto, trilhado outros caminhos para, no fim das contas, se descobrir na mesma cela de onde nunca saíra. Cansada de ter acreditado em renovação para voltar ao mesmo ponto inicial da profecia e fazer, ela mesma, cumprir o destino imposto sem dó ou piedade pelas muitas mãedrastas que tivera.
As águas não tão cristalinas do encanamento velho misturaram-se às poucas lágrimas que ainda rolavam dos olhos mais que ardidos e inchados, mas o importante é que refrescavam-lhe a tez.
O choque da água gelada contra o corpo quente da noite pouco dormida acordava-a, mas não completamente. Os músculos tensos ressentiam-se das agressões sofridas e clamavam por água morna, óleos e massagem.
Mais uma vez fracassara. Ingenuamente ou apenas cega pelas sombras de seu fértil inconsciente, tentara novamente salvar uma alma, em última análise, a sua alma já destinada ao fogo do Inferno desde os dois anos de idade. Mantinha a crença tola dos que acreditam em contos da Carochinha de que, se vencesse uma batalha invencível, se conseguisse se fazer amada por alguém duro, empedernido, que a desprezasse, teria alguma chance de salvação.
Apegou-se a esse alguém de forma doentia e desesperada, como náufrago em alto mar se agarra a qualquer tábua, desprezando os muitos pregos enferrujados que acabariam por envenená-lo. Bebeu a água contaminada do pântano em que fora criada e à qual se acostumara como quem bebe champanhe. Água pura, da montanha, até trouxera de reserva em galões fictícios dos seus poucos momentos de vislumbre do paraíso. Mas era como água benta: não dava nem para encher um cálice de licor.
Burra! Armou novamente o laço, foi atrás do mesmo tipo de aranha caranguejeira e deixou-se enredar, isto é, fez da teia sinistra o seu sudário.
Tudo isso, quem sabe, para provar à família, a Deus (?), a Jeová, sei lá, que era boa filha, boa gente, boa cidadã, boa devota, boa cristã. Deixou-se estuprar, ou melhor, estuprou-se e violentou-se das mais variadas formas: auditiva, visual, emocional, táctil, espiritual. Viveu, encarnou mais uma vez a protagonista do peculiar “Dogville” e saiu andando com coleira de ferro amarrada a uma mó de moinho que arrastava pela cidade. Só se esquecera de que não tinha pai gângster, não tinha nem mais pai nesse plano. Ficou só no desejo remoto de metralhar a todos, sem exceção, da forma mais impiedosa e fria possível.
Como não era herdeira nem “bem casada”, nem sustentada por ninguém, além de seus próprios fantasmas, engoliu em seco, beijou sua gatinha, encheu-se de maquiagem e força para poder trabalhar.
No caminho, percebeu-se só. Só de uma forma tão visceral e definitiva que até doeu. Como Macabéa, ela também se doía muito, porém não havia aspirina que desse jeito.
Ao constatar a solidão, sempre tão presente, veio-lhe à lembrança o sonho recorrente (sozinha ela podia sonhar à vontade, podia se regalar de tanto sonhar): todos iam embora ao crepúsculo, ela via a noite desabar sobre a ladeira e ficava presa à casa como a mãe infeliz de “Os Outros”. Pensou num romance policial que lera: “É sempre noite” e num verso composto por sua mãe, imagem recorrente na obra desta: “Quem sabe , morrerei um dia à hora do crepúsculo?Só que no sonho ela não morria. Nunca. Ou talvez como Tântalo viesse a morrer de sede num Hades gélido. Cada vez que aproximasse as mãos em concha da boca, a água do rio lhe escorreria por entre os dedos, tal qual a vida, zombeteira, sempre lhe fizera.
Tentou emergir da areia movediça em que se atolava. Nada! À sua volta transeuntes passavam, pessoas passeavam com seus cães domesticados em coleiras, carros buzinavam, ambulantes ganhavam seu sustento e terceirizavam seu trabalho. Viu um mendigo estatelado no chão imundo dormindo em frente à Leopoldina, enquanto trabalhadores e estudantes apressados quase tropeçavam nele. Olhou de novo e lá estava sua alma despedaçada fazendo companhia ao sem-teto: alma gentil que te partiste e te ofereceste, dócil, como jantar aos grandes peixes. Os grandes peixes não te quiseram e te desprezaram. Apodreceste sem que tivesses alimentado a um só verme desta terra.
Sentiu-se um tanto capenga, esquizofrênica, sabe-se lá! Parecia que sofrera um derrame ou que fora vítima de um acidente que a fizera perder um braço e uma perna. Sem o membro oposto a lhe fazer par, o membro sobressalente oscilava e o corpo todo perdia o equilíbrio, ficando à mercê do vento como um desses estúpidos bonecos de posto de gasolina.
Chegou ao trabalho em cima da hora e quis crer que não lhe notavam o cansaço. De fato, tão ensimesmados estavam os colegas e aqueles a quem atendia que nem lhe deram atenção. Uma das faxineiras, de enceradeira em punho, lançou-lhe um olhar inquisitivo, como a lhe perguntar: “Mas que diabos aconteceu, afinal?”
Lutou bravamente contra o sono que lhe entorpecia o corpo e a mente. Precisava dormir. Se acabar de dormir. Babar no travesseiro e tudo o mais. Desligar o telefone, a campainha, o interfone, tudo! E acordar para sair à noite, ir a bares – com que dinheiro?-, a shows, sozinha mesmo. Andar a esmo, deambular pela cidade ( e se o coração lhe disparasse, qual cavalo brabo pelos campos? E se o terror a assaltasse por inteiro, paralisando-a?)
Deveria usar óculos escuros, alegando irritação na córnea para que o chefe não a visse cochilar no expediente. Tinha de esconder a depressão ( ou que nome aquilo tivesse. Vida, talvez?) da mesma forma que as olheiras. A máscara deveria ser pesada para que não a vissem (e os olhos perscrutadores da faxineira?). Para que a deixassem ficar e ganhar o seu sustento e o de sua gatinha.
Súbito uma nuvem pesou-lhe sobre as pálpebras. Impossível resistir. Sentara-se, então, a um canto isolado do escritório, protegido por estantes, onde poderia fazer as revisões com tranqüilidade. Foi mais forte do que ela: cochilou. De forma intermitente. Sonhos esparsos entrecortaram sua baixa vigília. Dormiu sentada e desconfortável. Mas dormiu profundo até que as colherinhas de café com que jamais medira sua ternura chamaram-na de volta. Despertou e foi arrastada para o vórtice de seus temores. A janela aberta chamava-a. Atendeu ao apelo e, enfim, mergulhou.
Não, não estava só. Seu pai e seus avós a esperavam, à mesa do lanche com o pão quente e o miolo separado.
Sim, o sol estava se pondo...