Thursday, July 16, 2009


VOTIVA
(Luz... Porto)

Qual vela votiva em altar pagão
Consumo-me noite e dia e o meu penar
Esvai-se em lágrimas negras e rubras.
Sangue e morte entremeando-se em estranho pulsar:
Arrítmico, oco, bradicárdico coração.
Espero apenas que venhas e me cubras
Com a mortalha que teci nas noites varadas,
Aquela que dilaceraste ao fechares-me a porta.
Cerze-a, cola-a, remenda-lhe os pedaços esparsos,
Espalhados ao léu, à chuva, atrás de teus passos.
Resssuscita meu coração, inda que a marteladas
Para que eu possa dar meu último suspiro antes de morta.


BODAS DE PAPEL
(Luz... Porto)


“Um dia ele chegou tão diferente”... Sim. Mas há quanto estava essa diferença? Fazia tanto tempo que ela nem podia dizer. Só descobrira um pouco tarde demais que corpos frios não tornam a se aquecer depois de inverno rígido e severo. Corpos frios são mortos. Cadáveres. Pouco ilustres...
Quando a luz dos olhos se torna névoa é porque a catarata não tarda. Para catarata de amor não há laser. Não há explicação. Um dia Ele se vai e você fica como? Você fica. Atolada na areia movediça de seus pesadelos. O Amor voa, liberta. A Si mesmo. Não a você. A você ele a tem prisioneira, mofada, úmida, gosmenta. Atirada ao covil de suas feras domésticas, ao covil de seu lar despedaçado. Nunca refeito, nunca composto.
Não há saída. Só há Jobim. Não importa a quem você ame ou quem sonhe amar. O gozo do encantamento será sempre esmigalhado pelas rugas causadas por um sol inclemente e real. De um sol que a tudo vê.
Quando o desejo se vai, ele não volta. Se voltar, não é desejo: é outra coisa. Outro simulacro de ilusão. “Cortemos os pulsos”! “Cortemos os pulsos”!, dizem as navalhas sem fio, as gillettes e os Gilles imprestáveis.
E se a morte nos for a única realidade? E se já estivermos mortos sem o saber?
Deveria ser proibido por Lei Divina sentir essa dor. A dor da partida, a dor da perda, a dor de arrumar o quarto do filho que já morreu. A dor de se pressentir a partida. A dor de ser rejeitada. Das mãos que “estão muito frias”. No fundo, é nojo. Nojo do toque. Minhas mãos devem estar sujas. Cortemo-las, pois. Minha língua há de saber à saburra causada por cigarros baratos e em minha saliva reside a borra dos garrafões de vinho adocicados e com prazo de validade vencido.
Não desperto mais desejo. Mas o Desejo me desperta, me atiça, me instiga. Me faz olhar o fundo do poço e querer mergulhar, eu que nem nadar sei, para ver se finalmente encontro a mim e a minha paz.
Ele finge ressonar profundo, Finge não saber do fim iminente. Dez meses, dez anos, não há data. “Nosso dia é todo dia”. Logo, nenhum dia. Já não há mais dias, Hesíodo. Só o trabalho estéril. A falta de fruto.
Outra semente já dorme em seu coração. Loura? Sabe-se lá. Cabelos lisos? Provavelmente. Mais jovem? Certamente. Queria fincar uma estaca em seu coração e aos dois matar. Mas não pode. Falha a mão. Fala o Amor mais alto.
A semente faz com que ele prefira o vazio na cama à presença dela. A seu corpo quente que se resfria. O sorriso dela paralisa-se em esgar de horror.
Ele vê televisão, sente frio, está com sono. É preciso sentir saudade. Ela sente o sal na carne viva de sua feridas abertas. O celular está sem sinal, o dektop pifou, a conta bancária, vazia. Que dor! Que dor! Que dor! Deve ser muito covarde para ainda não ter se matado. Ou tão inerte que nem isso sabe fazer. E se já estiver morta em vida? Se for apenas um zumbi?
Ele ronca. Ela se rói.

Sunday, July 12, 2009


A Mulher de Oslo

(Luz... Porto)


A mulher de Oslo me cerca,

Me ronda, me enreda, amedronta,

Com seus cabelos surpreendentemente cacheados,

Seus olhos de sal e seu ar de tonta.


A mulher de Oslo me encara,

Me fita, me abre lânguida o olhar,

Em moldura enevoada preta e branca

E em sua voz rouca me traz o mar.


A mulher de Oslo, quem diria,

Achei-a perdida num blog qualquer,

Num quadrado vermelho, sem encarte sequer,

E, para mim, como se ria sua exótica figura fria.


Essa mulher, que sabe a nórdicos fiordes,

Já a vira em capa de livro de contos.

Éramos crianças, eu, ela e meu sonho.

E transportada era ela em asas de pombos.


A mulher de Oslo, tenho certeza,

É a feiticeira dos contos de fada russos

Que minha mãe nunca ao pé da cama me lera

Mas que a curiosidade me fez folhear de bruços.


Sob o fraco sol de Oslo eu me vejo:

Valsa de Strauss, em sapatos de cristal a bailar

Com essa mulher-esfinge-serpente-medéia

Até que eu possa ao ventre de Gaia retornar.

Sunday, June 28, 2009


Ton sur ton
(Luz... Porto)

Deus me deu uma filha em hora crepuscular.
Quando tudo já se esvai ou se sabe a ocaso.
Deus, quem sabe o Diabo, quis que me alegrasse
Essa menina –estrela que refulge e ilumina.

Pois que tenho uma filha, volto aos medos pretéritos:
“Já chegou?”, “Com quem saiu?”, “Conheço os pais?”
“Está com febre?”, “Comendo direito?”, “Os dentes escovou?”
E sorrio, balanço a cabeça, sei que ela se vira.

Eis que já tenho herdeira
Para a coleção do Quarteto, do Chico e do Tom.
Herdeira de direito e de bom gosto.
Pois que gosto não se ensina nem se transmite:
Apenas se tem.

E sou cada vez mais, eu que nem me imaginava,
A mãe súbita, a mão estendida, o verso frouxo,
Cansada de tantas perdas, de tanta saudade...
Sou eu a que agora apresento ao pai a neta,
Mais uma para ele cuidar.

E essa não é a Rebecca, a Roberta, nem a Laura.
Não é a Irene, Virgínia, nem a Débora.
Essa é a Paula, qual o avô não conhecido
E é a Ana, três letras apenas, como em Sol,
Sal, céu, sul, mar e essas bossas bossanovísticas.

Deus me deu uma filha
-E nem sei se a mereci-
Mas de tanto cuidar dos outros
Talvez um descanso tenha reservado para mim.

E eu, grávida de música,
Ouço-lhe a voz distante cantarolar
Acordes suaves em longínqua Mascarada,
Vendo-a em flor se formar em segredo
Pruma estrada que vai dar em Ipanema, Em Paris ou em sei lá.

Sei que o mundo vai de mim levá-la
Pois que para a árvore nenhum fruto feito é
Mas sei que nela estarei também
E tocarei cada rosa que ela tocar
E me alegrarei com sua caminhada
Que já desponta, com ela sorridente.

Esta Ana, este S.O.S. que , náufraga, enviei
Foi achada em outras plagas, lá bem longe
Onde não bate o mar
Mas onde florescem rúculas verdes e coelhos saltitam
E onde Rios se riem e se juntam
Para no oceano maior desaguar.



(Luz... Porto)


Vim, extenuada, por tantos caminhos,

Tijolos amarelos, esmeraldas pontiagudas,

Sempre trazendo em meu peito sozinho

Uma chama, um pedido de ajuda.


Vim, cambaleante, por tortas estradas,

Portos abandonados, barcos sem cais,

Camas baratas e eu, sem morada,

Ouvindo ao longe o clamor do "não mais."


Vim, e nem sei por que insisti,

Muitos bares,bodegas, shows e quermesses.

Por muito, muito pouco, quase desisti

E talvez sábio teria sido se o fizesse.


Mas, Pandora nos dita a sina:

Tonta fui e abri o cofre,

O que carrego desde menina,

Aquele por que toda gente sofre.


Dentro dele, quieta, só havia

A me espreitar, me cercar, malsã

-E sei que em sonhos já a via-

A triste e falsa esperança vã.


Monday, June 22, 2009


Diabólico Festim
(Luz... Porto)

Me perdi só, tonta e cega, em teus braços
De nossa valsa restou nem compasso
Tuas cartas e fotos eu amasso
Queimo ervas para esquecer teu abraço
E tudo se funde e confunde em mim.

Tento encobrir com kajal meu fracasso
Bebo chá pra esconder meu cansaço
Mas quando sonho, acordo é em teu regaço
E me aquece teu olhar de mormaço
Naufrago em teus cabelos de sargaço
E afundo e me inundo num mar sem fim.

Meu sofrimento e a dor eu amordaço
Junto armas e teu rastro em vão eu caço
Cavo olheiras, nos olhos, o inchaço
Lágrimas secas gelaram-se em aço
Toda fagulha de amor eu rechaço
Tranco a casa e da arma há o estopim.

Sunday, June 21, 2009


A Górgona
(Luz... Porto)

A morte me ronda
Me espreita funesta
A morte me sonda
Me quer na sua festa.

A morte circunda
Com fauces vorazes
A morte me inunda
Com dedos audazes.

A morte acompanha
Minha triste sina
A morte abocanha-
Me desde menina.

A morte assombra
Aos moços e aos velhos
A morte é uma sombra
Em meu epitélio.

A morte levou-me
Pai, filho, avós
A morte secou-me
Em quentes anzóis.

A morte é certa
Derradeiro algoz
A morte liberta
Deus, vela por nós.

Wednesday, January 28, 2009


Respingos
(Luz... Porto)


Minha alma está suja, salpicada
Da lama podre de amores não correspondidos.
Minha alma está suja, urge lavá-la
Pega Veja, BomBril, Lysol e removedor
Pois que só a aguarrás do Tempo será talvez capaz de
Tornar essa tela obscura que é meu coração
Ecrã imaculado em que se desenrole um novo afeto.
Vem, não demores que esse mesmo tempo
Pode mofar o que inda resta em mim
De mais singelo e intocável.
Abra as portas dessa represa que trago nos olhos
Para que a água enfim liberta
Com a força de uma enxurrada
Despregue de vez esses respingos incrustados
Das vestes de minha alma cansada.

Thursday, January 08, 2009


QUASE LUZ
(Luz... Porto)

Quase luz, quase sombra, quase vento,
Tempestade, fúria, furacão e maremoto.
Quase romance, quase gozo, quase sentimento,
Tudo muda, pouco fica, contínuo moto.

A tez pálida contrasta com o tom hindu.
Sol forte se alterna com lua argêntea.
Dedos longos deslizam pelas teclas
Do piano ébano e marfim que nunca toquei.

Ocasos, crepúsculos, marés, calmaria.
Seixos, cascalho, rouxinóis e orvalho.
Dores, danos, demência, delírios
Passeiam por entre árvores, faias, carvalhos.

Oceanos rugem, a terra treme, corpos gemem.
Estrela polar, cruzeiro do sul, breviários, missais.
Rosários de contas de rosa, santificados, beatíficos.
Céus róseos tingem-se de azul plúmbeo.

Nuvens cheias de dedos prenunciam o arrebol.
A chuva, o solo fertilizado, repleto de húmen.
O transbordar da natureza, o ciúme dos deuses.
Nós, mortais, abandonados no promontório
Da desgraça, dos abutres, das feras.

Quase luz, quase sombra, quase vento.
Um coração quase pueril...
Quase um amor...
Quase nós...

Sunday, December 21, 2008


PANDORA
(Luz... Porto)

Ingrata Pandora, por que foges de mim?
Que motivos tens para me desprezares?
Que prazer mórbido sentes em me tratares assim?
Não te apiedas nunca de meus pesares?

Sou eu,teu Epimeteu,
Aquele a quem seduziste com longas pestanas,
O que já se foi,partiu,morreu.
Do peixe bíblico não sobraram nem as escamas.


Na caixa que trouxeste só sobrou a esperança
Aprisionada, nua, sem vestes,
Doce engodo de deuses cruéis.
Por que não me honras com essa contradança
E me deixas atirar-te de vez a meus pés?

Sunday, November 30, 2008


Em Carne Viva
(Luz... Porto)

O amor chegou de mansinho,
Sorrateiro e a tudo aniquilou.
O amor me tomou em seus braços gélidos,
Suas asas negras à minha alma
Levaram ao cume do despenhadeiro.
O abismo me fitou com olhos de fome.
Clamou por mim, exigiu meu corpo.
Minha carne trêmula mergulhou mesmerizada
No vazio, no caos, nas pás de um liquidificador.
Meu espírito descarnado escancarou
Sua fauce sedenta de sangue.
Vomitou meu ódio, minha raiva,
Minha revolta, meu amargor.

Friday, October 17, 2008


A BÚSSOLA DE OURO

(Luz... Porto)


Onde estás, alma desgarrada, que não me respondes?

Em que vão da memória, em que beco do passado te escondes?

Vago pelas ruas, deambulo insone, insana

E, como no pesadelo que me assombrava,

Passas por mim e eu, no ônibus que não pára, te perco.

Seguimos direções opostas, diversas.

Tergiversamos.

Combalida, enfraqueço: dôo-me toda.

O pulso é fraco, a respiração, débil.

Quem posso ser sem a minha alma?

Fragata ébria a soçobrar na correnteza de esgotos

Sem capitão, sem mastro, sem ratos, sem rastros?

Como posso ser o móbile solto no furacão

E ir em frente?

Não vou.

Empurram-me. Enxotam-me.

Sem minha alma não passo de zumbi errante,

Autômato sem luz, sem brilho, sem força.

Urro, berro, choro, grito, clamo:

-"Volta!"

E nem a pedra fria de meu túmulo me responde.

Monday, September 15, 2008





Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão
-Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes
para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído
Alberto Caeiro



Des Em Carne Ação
(Luz... Porto)


Dizem que quando um espírito desencarna, ele é recebido por espíritos amigos que o guiam em direção à luz. Quando a morte é súbita, porém, o espírito custa a acreditar em sua mudança de plano e teima em vagar pela terra, tentando interagir com os entes queridos ou com aqueles com quem compartilha questões pendentes.
E o amor? O que acontece quando um amor desencarna de nós? Às vezes é tão lento o processo que nós nem lhe percebemos a ausência. Mas quando a ruptura é brusca, ânfora arremessada do alto do balaústre com toda a violência, ficamos atordoados. Não sabemos o que fazer. Continuamos com aquela alma que experienciávamos como gêmea, colada à nossa. Não a alma verdadeira, mas a suposição da alma. Como diz Chico Buarque: “dói latejada, é assim como uma fisgada no membro que já perdi”.
Sentimos as mesmas coisas que antes: qualquer almofada, bolsa, travesseiro, é o corpo amado que enlaçamos com ternura. Conversamos com a alma de nós desprendida e como ela já quase não nos respondia, mal percebemos a sua falta.
Ao passearmos, tudo nos faz lembrar o parceiro partido. São lugares, melodias, paisagens, anúncios do hotel em que planejávamos passar o tão esperado feriadão. Até o toque do celular do taxista que nos transporta é a música de um segredo especial só partilhado pelos dois. Dois que críamos um. Achávamos, jurávamos que seria para sempre, que seríamos indissociáveis. Talismãs foram comprados, anéis, berloques com meio-corações. O nome, o sabor, o suor, o cheiro, o gosto do outro já corria em nossas veias qual misteriosa e intensa pororoca alquímica.
Passamos por vitrines e notamos tudo o que ficaria bem no ser amado, tudo o que lhe poderia interessar, cada graveto com que nós, marias/joões-de-barro teceríamos nosso ninho de amor. E não percebemos que, no ninho oco, nem vestígio de ovo, nem pena de sabiá.
O Forever que compartilhávamos não passa agora de um “Never more!” do corvo de Poe. As lembranças? Varrê-las para debaixo do tapete da sala nua? Nós, zumbis errantes, vagamos pelas noites, com nossa carcaça autômata, nossa alma esfrangalhada e o terrível fantasma do outro/nós a nos arrastar pelas ruas com seus grilhões impiedosos.
Já ouvi, certa vez, a teoria de que esse mundo é obra do diabo, ou que, ao menos, é ele quem nos governa. Isso explicaria tanta coisa! Até káritas, essa virtude teologal transmutada em amor carnal, não passaria de ilusão do demo para nos enganar. Seria o nosso “pão e circo” nesse coliseu de horrores em que vivemos.
Deveria eu ter ouvido o conselho de Ary Barroso para Maria Rosa, a mulher envelhecida que trajava andrajos feitos com retalhos de seus melhores vestidos/amores: “Vocês, Marias de agora, amem somente uma vez pra que mais tarde essa capa não sirva em vocês.” Tarde demais. Ela já me embala qual manto dessacralizado de saudade.

Monday, September 01, 2008


Ophelia
(Luz... Porto)



Besta, torta, lá estava eu, caída de amor.
Rubra, rugindo por uma paixão póstuma, antepóstuma.
Ultimato de uma vida sem sentido, demente, brumosa.
Navegava sobre os alicerces sólidos de minha neurose,
A única base em que jamais ousei firmar meus dias lúgubres.
Ao nocaute de meu ego por meu superego sou levada.
Flutuo agora, austera, dona da verdade
Esvaída de meu sangue anêmico traído por minhas entranhas.
Tiraram-me os pés com que pisava o chão.
O útero, os sentidos me foram sedados.
Esbravejo, mas nenhum som vem à minha garganta...
A qualquer momento posso desabar
Mediante um estalar de dedos:
O estalar de dedos da deusa egípcia,
Rúnica, maia, asteca ou hindu a que chamam morte.
Quatro cartas não mas mostrou o Tarô.
Um a um na manga do jogador mais ousado
Adormeceram os ases, a Roda, a Torre, os
Namorados, o Diabo, ou o Enforcado?
De se as desvelar não é chegado o tempo.
Oh! De quantas vidas precisarei
Para decifrar o código cuja chave se
Recusa a abrir meu parco entendimento
Esbugalhado pelo álcool, pelo tabaco, pelo absinto?
Calo-me e me pergunto quantas vezes
Inda terei de morrer para que se cumpra o destino.
Sarcófago displicentemente jogado ao Nilo sou.
Algas cianofíceas emolduram-me o
Rosto pálido e aturdido de
Esfinge que se perdeu em
Seu próprio labirinto.

Monday, April 21, 2008




PERSÉFONE
(Luz... Porto)


Eu colho flores como quem já morreu.
Como quem se morre a todo instante
E nem sabe se já feneceu.

Eu colho flores como Perséfone,
Fingindo não ver a seus pés o abismo,
Ansiando pelo maldito amor do deus das trevas.

Eu colho flores como um náufrago à deriva.
Como barco ébrio sem rumo, sem sentido,
Buscando um porto que não é o seu.

Eu colho flores à beira da loucura.
Escultora de nuvens, artesã sem cinzel,
Fiandeira de mim mesma, Penélope ao léu.

Thursday, November 15, 2007


Menina na Lua
(Luz... Porto)



A menina perdida na lua
Chorava sua solidão astral.
Veio então a Estrela D’Alva
E deu-lhe de presente
Roca para fiar.
A Aurora de róseos dedos
Fios tênues de sol lhe cedeu
Para que com eles ela pudesse bordar.
Então o rosto da solitária menina
Iluminou-se de raios de luar
E ela pôs-se a desenhar
Filigranas, mosaicos, mandalas
E na roca começou a traçar
Tramas, tranças, fios de ouro
Que se multiplicaram, multiplicaram
E longamente se alongaram, formando
Sedosa colcha para se aninhar.
Embalando, aquecendo, envolvendo
Seu frágil corpo tão alvo e gélido
Até que a vistosa malha
Contornos definidos tomou
Emoldurando rosto suave de princesa nórdica
Cujos olhos profundos
Passaram então a velar seu sono conturbado
E a menina pôde enfim voltar a sonhar.

Sunday, August 05, 2007




.... PLENA PAZ.....


(Chicco Lacerda)


presente de aniversário




O dia nasce em doce deslumbramento


Desvelando-se no suave sussurro da brisa


A manhã é fugaz delícia, sábia pitonisa


Esfarelando raios ao sabor do momento




Tudo que ela traz é transitória transparência


Mas os poetas enxergam além do visível


Sabem que o instante é a morada possível


Para verdades que viajam além da aparência




O brilho que baila na alvorada é fatia


De uma verdade bem maior e constante


Viveiro da plena paz que o Sol irradia




O rio prevê a alegria de um beijo constante


O mar desafia o tempo nos olhos de Luzia


O amor doma o destino em paz triunfante

Friday, July 27, 2007


........PRECÁRIA PAZ.................

(Luz Porto/Chicco Lacerda)


Você virá?

Minha precária paz se desfaz,

o dardo da dúvida me atravessa

ainda não sei o que é o Amor.

Será esta a mesma dor que, perversa,

espalha versos no meu coração?


Poderá ela um dia se dissolver na penumbra

de um beijo roubado no cinema?

Poderá escorrer pelo ralo da memória

após uma noite quente em sua cama?


Esta dor tem um rosto fugaz e etéreo...

Sim, criei você em imagens de sonho.

Agora, sou prisioneiro desse mistério

Remédio? Haverá algum? Onde e quando?

Só consigo pensar em doces doses de realidade

Beijos sinceros numa cama de verdade...


Pois a paz no Amor é a homeopatia da alma...

Sunday, April 15, 2007


SANTA LUZIA
Daniel Junior

o q dizer...
só q nao sou merecedor
as reticências servem sempre pra explicar
o tornado na China,
o olhar da menina,
a fome no Japão

me sinto um fardo, me sinto um ladrão
nesta lida de aventura de furtar
valha-me Deus de ser ladrão da tua casa
e hoje te encontrar,
por aqui.

diz pra mim... de q serve meu semblante assim
vendo teu rosto como quem imagina Santa Luzia
descer do altar pra perdoar
seu pecador
que nem fez por entender a Graça de Deus
que não entende nem a Semana Santa do saber
que é pra onde vai quem não entende de entender

Digo-te claro:
dói mais do que se eu tivesse morrido
é da jugular, é da ferida e é dolorido
que colorido tens na tua sina!

Santa Luzia
castra minha língua e dominarei meu corpo
perdoa minha alma e estarei disposto
a não encarar a tua face
Santa Luzia


MARIA SEM-VERGONHA
(Luz... Porto)
Á minha segunda filha

Deus me deu uma filha
No tempo de madureza
Quando o ventre, mal semeado,
Já murchou e secou todo o fruto.

Deus, ou o diabo, sabe-se lá,
Me deu uma filha,
Mas não aos poucos, de zigoto a feto.
Deu-me filha já pronta, mal criada,
Geniosa, desengonçada,estragada.

Quis Deus que a encantadora criatura
Me chegasse às mãos ressequidas,
Pela falta de acalanto,
Já formada, já perdida, já achada.

Deus, ou o diabo, se é que ele existe,
Promoveu o encontro dessas almas
Separadas por abismos insondáveis
E por Cronos, deus malévolo e tinhoso,
Que por filhos não nutre lá grandes simpatias.

Quis Ele, ou ele, se é que me entendem,
Que eu me reconhecesse por trás do boné xadrez,
Por dentro dos tímidos olhos de jabuticaba,
Por cima daqueles pés tão cheinhos e bem-feitos,
No enfeite de cabelo infantil em sonho tomado,
Reaparecido por milagre na casa de minha mocidade.

Deus, ou o diabo, ou os dois,
Quis que de meu seio empedernido
Brotasse o leite da partilha,
O mel das noites insones
E o fel que todo amor traz escondido em seu âmago.

Meu fruto, que já soube a verme,
Sabe a provocação, peraltices, implicâncias.
A pequenos objetos discretamente furtados:
Uma toalha aqui, um chinelo ali, uma mala acolá.

Meu fruto, banda de música a encher a casa vazia,
Sabe também a aconchego, a dengo, a carinho e a ciúmes impossíveis.

Meu campo de flores não é de rosas,
Lírios, zínias, orquídeas ou hortênsias,
Mas de margaridas, flores do campo, marias-sem-vergonha
Que, se colhidas de seu habitat natural,
Fenecem qual peixe fora d'água.




ATLÂNTIDA
(Luz... Porto)

Eu vi uma cidade flutuar submersa.
Seus portos, ruas, praças e mendigos soçobraram
Mumificados pelo pó de antigas crenças,
Dogmas, certezas e verdades inabaláveis.

Eu vi tal cidade ser tragada pelo oceano
Qual dejetos capturados no triturador de alimentos
E vi pernas, braços,seios, mãos, dedos, todos cortados,
Fatiados num sinistro salame, banquete de Posseidon.

Eu vi os corpos aos pedaços
Naufragarem cegos, surdos, atordoados,
Claudicando suas dores, arrastando correntes,
Num turbilhão de delírios, convulsões e marasmos.

Eu vi seus habitantes não verem
Que haviam sido devorados, que nada permanecera igual
Pois que tudo de fato pouco se modificara:
Superfície e profundeza igualavam-se no vazio.

Eu vi uma cidade ser tomada pelas trevas,
Iluminada por luzes de neon plasmático.
A meia-noite ser o meio-dia.
Rostos opacos tornarem-se translúcidos.

Eu vi plâncton fértil ser trocado por pílulas multicores;
Amantes, professores, médicos, sacerdotes, por seu simulacro virtual.
A água-mãe em acre vinagre se transmutar
E o pão nosso de cada dia converter-se em pedra.

Eu vi o fim dos tempos - ou o início? -
Vi a Arca da Aliança ser rompida,
Sodoma, Gomorra, Babilônia, Nínive virarem sal.
Ícaro incendiar-se, bola incandescente, rumo ao sol.

Eu vi o Alfa encontrar o Ômega,
O Sétimo Selo ser estraçalhado,
Eros e Tanathos se beijarem em conjunção carnal,
Deus e o Diabo se fundirem no derradeiro Caos.

Eu vi uma cidade flutuar submersa.

Saturday, February 03, 2007

LABIRINTO


LABIRINTO
(Luz... Porto)

As portas, que seriam cinco, revelam-se sete. A sétima porta só se cruzaria com a morte. Era preciso vencer o medo, mata-lo para que se obtivesse o que por trás jazia. E o que jazia era o Desejo, ou melhor, a concretização final desse desejo pulsante. Mas como mataríamos o medo sem conquistarmos o que desejamos, aquilo que nos dará forças para matar? Paramos congelados e patéticos nesse paradoxo. E ficamos ali, encruados, gastando toda uma vida, aquela, para vencermos o medo. Na maior parte dos casos não o vencemos. Ele é quem nos vence pelo cansaço.
Há algumas pessoas, não sei se corajosas ou não, que, fascinadas pela idéia do que encontrariam após o portal, tentam dar cabo do medo. Como não têm sucesso, acabam por tirar suas próprias vidas. A Igreja não deixa que seus corpos sejam enterrados em solo sagrado. Não se pode, teoricamente, rezar por suas almas, só no escuro e bem escondido. Nunca soube se elas encontraram o que buscavam. Há os que consideram tal ato hediondo e passível de punição eterna. Há outros, como Bandeira, que lhes apreciam a paixão. Um terceiro grupo os toma por covardes pura e simplesmente.
De minha parte, não sei. Como o Leão de “O Mágico de Oz” nasci desprovida de coragem. É esse o atributo que busco. Mas já intuí que ele não estará atrás da sétima porta. Talvez num cofre, num baú que eu ainda guarde no meu quarto de moça solteira.
Será coragem sucumbir ao Desejo ou resistir ao Desejo? Tentar subjugá-lo, cavalga-lo, nada mais é que se entregar a ele... Os jesuítas nos ensinaram a fustigar a carne para aplacarmos seus anseios e domarmos nossos demônios. Um Caetano pós-tropicalista concluirá uma de suas mais belas canções com o fecho: “Coragem grande é poder dizer sim”. Sou levada a pensar que dizer sim exige uma coragem dos diabos. Mas dizer sim implicará, necessariamente, abandonar o jogo, pendurar as chuteiras, saltar da Pedra da Gávea sem pára-quedas, voar do oitavo, do vigésimo-quinto andar, atravessando esquadrias sem asas?
Atrás da sétima porta está o saciar do Desejo, o Mistério, a Plenitude. Só que o Mistério, como bem disse Gil,não é nada, nada, nada do que pensávamos encontrar. É o Icognoscível, o Imponderável, o Inatingível, o Insustentável, o Intraduzível.
Atrás do sétimo portal, tememos, pode se encontrar uma duplicata da vida, dessa mesma droga de vida que levamos na terra. Pode ser uma ironia do Criador que tenta nos despertar a consciência, fazendo-nos girar indefinidamente pelos mesmos labirintos enquanto batemos a cabeça nos mesmos muros, quase nos matamos pelas mesmas paixões equivocadas e brigamos com quem deveríamos ter como aliados.
Atrás da sétima porta, tanto pode estar o “Campo de Flores” de Drummond, quanto a Floresta de Espinhos da Bela adormecida. Podemos ver os filhos que não tivemos, o amor que não deixamos aflorar, as canções que não compusemos, os botões que não germinamos, as paixões que não vivemos, as árvores que não plantamos.
Gastamos uma vida inteira buscando esse portal que tomamos como último e para quê? Esquecemo-nos das outras portas que o precedem, das ante-salas mais ou menos arejadas, mais ou menos amplas. Dos olhares com que cruzamos, livros inteiros que deixamos de ler,das mãos que nos afagam, fonte de sensações infinitas, dos adamascados e aveludados que acariciam nossa pele. Não colhemos os frutos, os pomos, não bebemos do vinho, não comemos do pão e queixamo-nos porque sabemos a bolor. Talvez por isso a sétima passagem acabe por se revelar apenas decepção para tantos.


MORADA
(Luz... Porto)

A casa onde não mais habito
Habita a minha alma,
Assombrando-a, atormentando-a,
Enchendo-a de nostalgia.
A casa que deixei para trás
Ficou-me na memória,
Mas, ai de mim, herdeira da mãe das Musas,
Não tive filhas assim tão ditosas
Que me distraíssem o pensamento.
Hera condenou-me ao não esquecimento.
Não há lugar pior para se carregar uma casa
Que na memória
Pois o que fica é o que já é findo.
Sei que esse tempo perdido
Nem perdido está.
O tempo perdido paira na imensidão do sem-tempo.
Implodir a casa. Como?
Desfaze-la pedra por pedra,
Tijolo por tijolo, telha por telha
É também sentir-lhe a alma.
Sentir os longos anos de labuta
Gastos em hipoteca infindável. Para quê?
Para vê-la reduzida a um bunker-canil?
Para ver extirpadas as flores-de-maio e os jasmins?
Para se existir nela sem as varandas abertas
E as janelas escancaradas de par em par?
Para abrir a porta empenada que gemia
O cansaço das coisas envelhecendo
Sem pisar no sinteco a refletir o sol canicular?
Para não ter mais jardins, mais varais,
Pardais, andorinhas, rolinhas?
Para não ter mais quintal
Onde se brincava com pedras em lugar de bonecas?
É preciso demolir a casa.
Urge que se desconstrua a casa.
Rogo ao engenheiro bem-intencionado,
Ao arquiteto talentoso
Que nem poderia ter sido, nem fui,
Que me faça tal projeto.
Imploro ao mestre-de-obras
Que ergueu o Edifício Esplendor
Que o execute de cabo a rabo.
Suplico ao padre mais pio,
À mãe-de-santo mais potente
Que a exorcize de mim para sempre.
Agora que já saí de lá
Rezo, todas as noites,
Para que ela saia de vez de mim.

Thursday, February 01, 2007


COLAGEM
(Luz... Porto)
Assim tu seguias e seguirás
Melancólico e vertical
Como a palmeira em Iracema.
Ressentido, as nuvens passam ao largo.
O amor é apenas um susto
Surgido de repente na curva de uma escada
Perdida, desfeita no tempo.
Não te mates, não te mates.
Mas sei que não te matarás.
Sei que te consolarás
Em tua casca fleumática,
Com tua paixão medida,
Quando perceberes
Que a ausência
É a tua grande companheira fiel
Que de ti jamais se apartará.
A memória já estará entranhada
A teu ser como a sobrecasaca empoeirada
De teus mortos enfileirados no retrato.
Segues burocrata, funcionário público,
Bem casado, pai de família, homem respeitável.
O que pulsa em teu interior
É o que foi calado,
O que foi findo antes que o deixasses tomar forma.
Da falta que ama
Restará sempre uma certeza:
Às vezes um botão. Às vezes um rato.


SEIZE
(Luz... Porto)

E assim tudo ficou:
Ficaste aí e eu aqui
Numa tarde aquela
Antes e depois do pôr-do-sol.
A imagem congelou-se.
O tempo parou.
Passaram por nós
Eras glaciais, faixineiras descuidadas,
As quatro estações de Vivaldi,
O El Nino, um tsunami,
Garrafas de absinto, ópio, cocaína,
Aniversários, filhos, cônjuges,
Carros, cinemas, motéis.
A cama se abria tragando-nos
Rumo a um abismo insondável, imponderável.
Juntamos os cacos, recompusemo-la
E nela mergulhamos novamente
Extáticos, paralisados, patéticos.
A vida seguiu. Prosseguiu?
Quanto a mim, ainda estou naquele quarto de fundos,
Vestígios de mata, de mato,
Cobertos pela cortina cerrada,
Andar desconhecido, endereço esquecido.
Gelada, estátua de sal
Com o olho baço a brilhar
À espera de que retornes.